Muito bom!
Filme aborda o tratamento psicanalítico por intermédio de seis testemunhos de pacientes dos
fragmentos da experiência de suas análises.
https://www.youtube.com/watch?v=FLQXwwzq28o
ESTE BLOG CONTÉM AS INFORMAÇÕES SOBRE AS DISCIPLINAS QUE MINISTRO NO CURSO DE PSICOLOGIA, ALÉM DE INFORMAÇÕES E NOTÍCIAS SOBRE A PSICANÁLISE
quarta-feira, 21 de maio de 2014
'Psicanálise é a medicina da alma do nosso século'
'Psicanálise é a medicina da alma do nosso
século'
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,psicanalise-e-a-medicina-da-alma-do-nosso-seculo,437434,0.htm
Especialistas refletem sobre a
obra do pensador, 70 anos após a sua morte; leia aqui entrevista com Elizabeth
Roudinesco; leia ainda, no 'Cultura', artigos de Joel Birman, Maria Rita Kehl,
Sérgio Telles e Luiz Albeto Hanns
PARIS - Poucos intelectuais traduziram tão bem sua época como Sigmund
Freud fez com o século 20. Em sua obra, estão expressas as bases de conceitos tão
poderosos e, ao mesmo tempo, tão legíveis, que se tornaram parte do cotidiano
com a velocidade característica de sua época. É o caso do inconsciente - um
conceito já elaborado nos séculos 18 e 19 por autores como Leibniz e Edward von
Hartmann. Reinterpretada por Freud, a ideia de que o que falamos pode ter
significados ocultos que fogem à esfera da consciência e, portanto, ao nosso
domínio, é hoje reconhecível por todos.
Resumir seu pensamento a esse conceito, porém, é limitar uma obra
enérgica e influente, alerta Elisabeth Roudinesco. Psicanalista, historiadora,
docente, escritora, discípula de Jacques Lacan, amiga de Jacques Derrida,
Elisabeth é, aos 64 anos recém-feitos, um dos pensadores vivos mais importantes
de sua área, a psicanálise - um dos legados de Freud à humanidade. Segundo a
intelectual marxista, o médico neurologista convertido em gênio está por trás,
de uma forma ou de outra, de todas as formas de emancipações vividas pela
sociedade do século 20, das quais o feminismo e a liberação sexual são só dois
exemplos evidentes.
Além de suas atividades acadêmicas, que a levam a viajar o mundo todo,
Elisabeth, uma das intelectuais mais respeitadas da França, se mantém
hiperativa como escritora. E no centro de seus interesses está Freud. Ele
explicaria a efervescência da autora, que lançará dois novos livros - Histoire
de la Psychanalyse en France (La Pochotèque) e Retour à la Question
Juive (Albin Michel) - nos próximos dias.
Previsto para outubro, Em Defesa da Psicanálise (Jorge Zahar, 248
págs.) é o seu próximo lançamento no Brasil. Nessa obra, estão reunidos
entrevistas e ensaios da autora inéditos no País. Organizados pelo psicanalista
Marco Antonio Coutinho Jorge, os textos são de épocas diversas e abordam temas
polêmicos: a falta de participação dos psicanalistas na vida pública, a
homossexualidade, o antissemitismo e a ciência, além das conexões da
psicanálise com a medicina e a filosofia. No livro, a resposta da autora para
os que falam da morte da psicanálise é direta: "Que ilusão!"
Em 23 de setembro de 1939, Freud morria em Londres. Às vésperas do
aniversário de 70 anos de seu desaparecimento, o Estado pediu ajuda a Elisabeth
para esmiuçar a herança de um mestre. Em seu apartamento, em um quartier
pequeno-burguês de Paris, na quarta-feira, foram registradas mais de duas horas
de entrevista exclusiva. A seguir, sua síntese.
Estamos a 70 anos da morte de Freud. O que ainda é
tão representativo em sua obra? Por que ele é uma referência para a própria
humanidade?
Ele é o único a ter teorizado, assim como seus herdeiros, o que chamamos
de inconsciente. Não falo do subconsciente nem do inconsciente dos psicólogos.
Eu me refiro ao inconsciente, que pode ser traduzido pela noção de que, quando
alguém fala, não sabe o que diz. Há milhões de exemplos concretos, como o
ministro do Interior da França (Brice Hortefeux), que fez declarações racistas
na semana passada. Conscientemente, ele não é racista. Inconscientemente, sim.
Mas julgamos alguém por seu inconsciente? Sim, se ele é ministro. Mas, via de
regra, não podemos enviar alguém aos tribunais por seu inconsciente. Podemos
dizer: "Comporte-se!" Muitas pessoas são inconscientemente racistas e
antissemitas. Quando não há lei, esses sentimentos se exprimem.
Está no inconsciente? É inexorável?
É inexorável. Freud dizia, com razão, que a única maneira de impedir o
crime é a lei, a civilização. No fim do século 19, havia pessoas e governos
pública e oficialmente racistas. Não era proibido.
Permita-me retomar a questão: por que Freud ficou marcado como o homem
que sintetiza o século 20?
Porque ele aportou algo de novo. Ele estava no prolongamento da
filosofia do sujeito. Ele trouxe explicações que a filosofia havia pensado, mas
ele lhes deu um assento teórico. E isso não me surpreende. Além disso, Freud
permite compreender os dois totalitarismos do século 20: o nazismo, sobre o
qual pensou e anteviu melhor do que qualquer outro, e o comunismo, que não teve
nada a ver com sua ideia original, com o marxismo. Os dois, aliás, são
diferentes: o nazismo se inscreveu desde seu início, sabia-se o que esperar; o
comunismo caminhou para o lado errado. Mesmo assim, Freud viu que ele não
funcionaria. É verdade que ele era conservador, assim como muitos de seus
herdeiros. Mas há muitos freud-marxistas, muitos freudianos de esquerda - que
são os meus preferidos, aliás. Nessa época, psicanálise era uma teoria da
regeneração do homem, da emancipação. Quatro coisas nasceram ao mesmo tempo: o
sionismo, o último movimento de emancipação dos judeus; a psicanálise, que é a
emancipação do inconsciente; o socialismo, a emancipação social; e o feminismo,
a emancipação da mulher. Era um grande movimento. O século 20, como anteviu
Freud, foi o triunfo do contrário - o que pode ser resumido no nazismo. Freud
afirmou que o triunfo do contrário já estava lá, entre nós, naquela época. E
disse ainda: "Atenção, eu sou a favor da emancipação, mas o homem é
habitado pelo contrário disso." Eu creio que ele foi o único a dizê-lo. É
um dos motivos pelos quais é o Homem do Século 20. Por outro lado, ele jamais
abandonou a ideia do progresso. Freud foi um homem progressista. Contra
Schopenhauer, contra os grandes conservadores de seu tempo, contra os que eram
inteiramente pessimistas em relação ao progresso, acusando-o de não servir para
nada, Freud disse: "Sim, ele serve." Foi por isso que eu o chamei,
depois de Adorno e outros, como a "luz sombria", marcada pelo
iluminismo, mas sem muitas ilusões. Esse vínculo, o fato de ter pensado a
relação entre as duas coisas, o levou a pensar ao mesmo tempo que o pior e o
melhor podem acontecer com o homem. Ele nunca foi antiprogressista, ao
contrário do que se diz. Por tudo o que mencionei, ele está no centro dos dias
de hoje. Você não pode pensar o sionismo, o feminismo, a liberação das
mulheres, a transformação da família, sem passar por Freud em determinado
momento.
Se Freud é o homem do século 20, qual é o seu lugar
no século 21?
É o mesmo. A maioria dos psicanalistas tornou-se conservadora. Não 100%,
mas a maioria é conservadora. Por quê? É uma de minhas grandes interrogações.
Eu não o sou, e no Brasil eles são menos. Diria até que são menos na América
Latina. Mas eles são conservadores por diversas razões. Os lacanianos não
deveriam sê-lo, já que Lacan relançou o pensamento da rebelião, da contestação.
A Internacional Freudiana tornou-se conservadora porque caiu na repetição do
dogma. Eles não se renovaram, tornaram-se um movimento dogmático, centrado
sobre a clínica e não sobre a reflexão a respeito da sociedade e do indivíduo.
Além disso, cometeram o erro de dialogar demais com as ciências duras, ao crer
que o debate sobre o cérebro e os neurônios era essencial. Sempre afirmei que
esse debate não era essencial, porque o cérebro e os neurônios não precisam de
psicanálise. Não há muito o que fazer com isso, senão dar medicamentos. Mas se
a psicanálise se ocupa apenas disso, afastando-se das moeurs (expressão
francesa para costumes), ela se torna conservadora, familiarista. Os
psicanalistas se desinteressaram dos assuntos sociais. Foi assim que se
tornaram conservadores.
Por que a psicanálise brasileira é menos
conservadora?
A América Latina, e sobretudo o Brasil, é uma sociedade que espelha a Europa.
Os psicanalistas brasileiros são ecléticos. Em alguns momentos são
culturalistas, e nos chateiam com a sua brasilidade - não esqueça que houve na
França a francilidade e na Alemanha a germanidade. Mas, fora isso, eles, como
espelho da Europa, importaram conhecimento. Ao importar, misturaram-no. E o
ecletismo dos brasileiros - mais do que dos argentinos, que são menos ecléticos
- se formou pegando um pouquinho de Freud, um pouquinho de Lacan e por aí foi.
Isso funciona porque questiona o dogmatismo. Eles desconstruíram, para empregar
a expressão de Derrida, o dogma europeu.
Voltemos a Freud. Ele não avançou em dois domínios:
as crianças e os psicóticos. Por quê?
Sim, ele avançou sobre o tema da infância. Ele nos deu a base da análise
da infância. O que se pode dizer é que sua corrente não triunfou no mundo
psicanalítico quando se fala em infância, e sim a de Melanie Klein. Nisso,
estou completamente de acordo com você. Foi ela quem fundou a psicanálise da
infância. No entanto, tudo isso é psicanálise. Ela engloba todas as correntes.
Sobre os psicóticos, você tem razão. Freud não acreditava que seria possível
analisar os psicóticos. Muito cedo, quando ele compreendeu que essa era a
"Terra Prometida" - bem antes da aparição dos medicamentos -, quando
ele percebeu que quase todos os seus discípulos eram psiquiatras e trabalhavam
com a psicose, ele se desinteressou, embora não tenha desestimulado ninguém. É
verdade que é um domínio muito problemático. A análise se faz para os
neuróticos. A "cura" analítica funciona muito para os neuróticos,
porque, como eles não se curam, se acomodam. E, como transformamos a neurose de
fracasso em neurose de sucesso, a cura funciona. A psicanálise torna mais
inteligente, mais corajoso, mais apto na sociedade. A psicanálise funciona
muito bem. Entretanto, é verdade que não curamos bem a psicose, embora tenhamos
nos desenvolvido muito nesse tema também. Os loucos hoje buscam na psicanálise
um complemento, já que os psiquiatras só querem saber de medicamentos. Se não
há a psicanálise, o paciente vira um legume, um morto em vida.
No início, com Freud, a psicanálise era um processo
breve, rápido. Hoje, é o contrário, estende-se por anos, décadas às vezes. O
que mudou?
Era rápido porque Freud fazia seis sessões por semana de uma hora. Era
intensivo. Há também o fato de que estendemos a análise para domínios não
previstos de início, o que a tornou mais difícil. Mudou-se a modalidade da
cura, também. Há pessoas que precisam falar sempre, ao longo de sua vida. Mas é
verdade que Freud ficaria chocado hoje. Duas vezes por semana, durante 10 anos?
Não! Para Freud, era de seis meses a um ano, todos os dias, por uma hora.
Quando não era possível, como Marie Bonaparte, tudo bem. Ela ficou 14 anos em
análise.
Freud esforçou-se muito para dar à psicanálise o
status de ciência, mas ela sempre esteve na alça de mira de cientificistas
ortodoxos. Como a psicanálise responde a essas críticas? E por que ela deve ser
considerada uma ciência?
Freud oscilou, hesitou muito entre o status de ciência, no sentido de
ciência dura - ele queria no fundo que a psicanálise fosse uma "neurologia
da alma" - e um outro status, que ele não chamava filosofia, mas ainda
assim estava do lado da especulação, da literatura e da filosofia. Ele
renunciou completamente e muito cedo ao status de ciência dura, porque se deu
conta de que não se tratava de uma ciência no sentido que se conhece. Logo, é
preciso inscrever a psicanálise no registro das ciências humanas. É uma
ciência, no sentido da racionalidade, mas não no mesmo sentido da biologia e da
neurologia. Freud se dividia entre as duas concepções. Não estamos mais no
tempo do darwinismo, e a biologia é reconhecida como uma ciência, uma ciência
da natureza. A psicanálise não o é de modo algum. Não tem metodologia,
resultados ou a positividade das ciências duras. É uma ciência mais próxima das
Humanas, como a Antropologia, a Sociologia, a História. Mas mesmo essa
concepção, a de parte das ciências humanas, já foi contestada.
O pensamento de Freud é íntegro e poderoso ainda
hoje? Sua força criativa ainda é existe?
Sem dúvida. Creio que vamos assistir a um grande retorno a dois
pensadores, inclusive: Marx e Freud. Não ao comunismo e à psicanálise, mas a
Marx e Freud. Autores como Marx, Freud, Nietzsche e toda a filosofia da rebelião
se tornaram malditos nos últimos 20, 30 anos, quando caímos em um estado de
neoconservadorismo. A crise econômica, em especial como a que se passou nos
Estados Unidos, vai desempenhar um papel considerável. Vamos voltar ao
pensamento da rebelião.
Como as ideias de Freud retornarão? Com que
aplicação?
Retornarão com as de Marx. Mas não sei como serão aplicadas. O que está
voltando com muita força é a ideia de que temos um inconsciente, de que o
desejo é capital. A psicanálise, bem pensada, permite compreender a moeurs, o
inconsciente, o desejo e a sexualidade de uma forma inteligente. É uma teoria
do desejo, afinal.
A senhora vê conceitos de Freud confirmados pelos
progressos da ciência ou por novas tecnologias?
Não. Os progressos da ciência são os progressos da ciência. Nenhum dos
conceitos de Freud é confirmado pela biologia. São dois domínios diferentes. A
psicanálise é a medicina da alma. É especial.
Assim como a psiquiatria, em sua origem?
Hoje não há mais psiquiatria. E, logo, nos damos conta de que existem
cada vez mais loucos. Porque são usados apenas medicamentos, ela não funciona
mais. É útil, mas não resolve. É muito interessante o que se passou na
psiquiatria. Biologizaram-na. Até então, era um equivalente da psicanálise. Era
uma medicina da alma. Mas a deslocaram para a biologia. Curamos a loucura? Não.
Acalmamos os loucos? Sim. Vivemos um recuo de 50 anos com a psiquiatria
"biologizada".
A obra de Freud é marcada por sua didática, sua
clareza. E esse não me parece ser o caso dos pensadores da psicanálise
contemporânea. De onde vem esse problema de comunicação?
Esse problema é enorme. Os psicanalistas escrevem em clichês. Mesmo que
Lacan seja um autor difícil de ler, não se trata de um clichê. Além disso,
mesmo que os seguidores de Lacan escrevam em secto, os freudianos também o
fazem. Freud era um autor claro, o que influenciou todo o movimento
psicanalítico. Hoje, quando leio psicanalistas freudianos norte-americanos ou
ingleses fico impressionada com os clichês que estão presentes. É um símbolo
muito grave de encerramento sectário. Quando os intelectuais se fecham em torno
de si mesmos, eles falam a linguagem de uma tribo. No interior, a tribo se
compreende. Eu sempre compreendi a tribo, mas não posso escrever como ela. Não
sei fazer. Sou muito clara. Às vezes os antropólogos e sociólogos que queriam
se divertir me perguntavam se eu, como psicanalista, não me sentia como o
antropólogo que chega à Melanésia e que deve decifrar a linguagem da tribo. É
uma alegoria exata. Eu decifro facilmente essa linguagem. Mas para você, que a
lê, não deve ser fácil. A psicanálise é mais afetada pelos clichês que a
filosofia, por exemplo.
O meu ponto é: se o problema da clareza da
comunicação existe, o que torna a psicanálise tão popular em todo o mundo?
Ela é popular em todo o mundo, mas o é de uma forma inconveniente. Por
exemplo, ela é popular em muitos países, infelizmente, pela forma da psicologia
interpretativa dos chefes de Estado. Eu recuso todos os pedidos de entrevista
sobre as fantasias dos chefes de Estado. Mas isso a TV adora, sob a forma da
psicologia. Todos os antifreudianos, todos os que não gostam da psicanálise,
dirão que ela está em todo lugar. Sim, os psicanalistas estão em todo lugar,
mas sob que formas! É ridículo!
quinta-feira, 1 de maio de 2014
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Relato emocionante do filho sobre a esquizofrenia do pai.
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-90/historia-pessoal/sobre-meu-pai
SOBRE MEU PAI
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-90/historia-pessoal/sobre-meu-pai
Para mim
foi impossível durante vinte anos nomear sua doença
por SAULO
SZINKARUK BARBOSA
Era um
ritual que Roberto repetia com frequência. Vestia meias grossas, calças de lã,
camiseta, camisa, pulôver de gola em V e sobretudo. Deitava-se sobre a colcha
de chenile que cobria a cama feita. Cruzava as mãos sobre o peito e assim
permanecia. Totalmente imóvel, não fossem os olhos a perscrutar ansiosos o teto
do quarto, como quem tenta identificar com a visão o barulho que os ouvidos estão
esperando. Quando sua mulher perguntava o que estava fazendo, a resposta vinha
firme, com convicção: “Estou pronto para a guerra.”
E não
adiantava ela lhe dizer que não havia guerra nenhuma, ou que era verão e tanta
roupa só podia fazer mal. Porque Roberto Oliveira Barbosa, meu pai, era
esquizofrênico.
Hoje,
dizer isso assim, com todas as letras, é até fácil. Mas durante os primeiros
vinte anos da minha vida foi impossível. Em parte porque, embora desde cedo
tivessem me dito que meu pai era doente e que eu precisava entender, ninguém
nunca me contou o que ele tinha, nem se algum dia se curaria. Não que minha
família fosse relapsa comigo ou com meu irmão mais novo, ignorando as
consequências que a esquizofrenia do nosso pai poderia nos causar. Apenas foi o
jeito que minha mãe e meus avós paternos encontraram para lidar com a situação.
Um padrão de comportamento que desde cedo aprendi a replicar, e que de certo
modo explica por que demorei tanto para encarar os fatos: a gente ia levando,
tentando deixar tudo o mais normal possível, contornando as crises da doença
com paciência, silenciando e baixando os olhos quando os delírios incluíam
acusações descabidas ou frases que doíam, e nunca, nunca discutíamos o problema
depois que o pior passava. Era no silêncio cúmplice e na rotina que se
restabelecia – um almoço sem incidentes, uma tarde de chimarrão e conversa
fiada – que encontrávamos o equilíbrio para aguentar firme e seguir adiante.
É verdade
que as crises mais intensas, ao que me lembre, eram esparsas. A medicação
mantinha meu pai consideravelmente lúcido e coerente boa parte do tempo, ainda
que ele não fosse capaz de trabalhar ou se envolver em alguma tarefa que
exigisse comprometimento. Quem não soubesse da esquizofrenia podia facilmente
pensar que se tratava de um sujeito na plenitude das suas faculdades mentais.
Um pouco calado, talvez, mas nada além disso. Era preciso um contato mais
demorado para perceber as distorções do cérebro doente, que em geral surgiam em
raciocínios e conclusões estabelecidas a partir de lógicas muito particulares.
Lembro
uma ocasião em que estávamos almoçando na casa dos meus avós e meu pai, do
nada, sugeriu seriamente que todos rompêssemos com um parente distante. Não
fizemos nenhuma pergunta – conhecíamos exatamente aquele tipo de situação. Ele
explicou mesmo assim. Disse que certa vez estava andando na rua com algumas
pessoas e que, quando uma delas mencionou o tal parente, ele tropeçou. Era
evidente, portanto, que o sujeito não era boa pessoa e que devíamos evitá-lo.
Situações assim eram bastante frequentes, tanto que todos sabíamos que o melhor
era ignorar, logo ele esqueceria e tudo seguiria seu curso.
Sem a
medicação, porém, ou quando por algum motivo ela era trocada ou tinha a dosagem
ajustada, a coisa mudava de figura. Aí, sim, precisávamos tratar com uma pessoa
sem nenhuma capacidade de discernimento. Felizmente meu pai não era violento ou
autodestrutivo. Suas atitudes nas crises mais fortes eram apenas excêntricas e
embaraçosas: cobria os móveis da casa com lençóis porque achava que eles
estavam com frio; andava pelas ruas a pé como se estivesse de carro,
respeitando as mãos do trânsito; conversava efusivamente sozinho, com o cenho
franzido e as mãos agitadas; elucubrava projetos sem sentido. Certa feita
cismou que deveria trocar seu nome para Vitoffbar, sigla que criou juntando as
primeiras letras de todos os sobrenomes da árvore genealógica da família.
Mesmo
assim, e por mais que as crises me envergonhassem, nunca procurei esconder meu
pai. Meus amigos da rua e colegas de colégio frequentavam minha casa. Quando
éramos mais novos, eles faziam perguntas: “O que teu pai faz?”, “Ele está de
férias?”, “Por que teu pai está em casa a essa hora?” Eu respondia que ele
cuidava dos negócios da família; meu irmão preferia dizer que ele era advogado.
Depois que entramos na adolescência, as perguntas cessaram. Aos poucos meus
amigos compreenderam a situação, ou foram alertados por seus pais. De mim,
nunca nenhum deles ouviu nada. Eu ainda levaria muitos anos para ser capaz de
falar sobre o assunto com alguém.
A esquizofrenia é uma doença que a medicina tenta
entender. Atualmente, acredita-se que sua causa esteja numa combinação de
fatores genéticos e comportamentais, como o ambiente familiar e
experiências traumáticas. Na minha família paterna, o histórico de transtornos
mentais é considerável, se bem que mal documentado e raramente diagnosticado.
Já ouvi histórias sobre meu bisavô, avô do meu pai, ser “meio esquisito”, mas
daí a saber do que exatamente ele sofria vai uma longa distância. São
lembranças puídas pelo tempo, de uma época em que o máximo de precisão a que o
médico chegava era afirmar que o paciente “sofria dos nervos”. Ouvi também
relatos de primos cujas vidas foram de alguma forma desviadas do curso normal
por algum tipo de impedimento mental.
A
história do meu pai segue o que a literatura médica define como padrão da
esquizofrenia. A vida corre sem incidentes até o início da fase adulta, quando
se iniciam as crises. Após uma infância e adolescência normais, meu pai saiu de
Santo Ângelo, município com pouco mais de 70 mil habitantes onde havia
crescido, para fazer faculdade em Santa Maria, uma cidade universitária
agitada, quase quatro vezes maior que sua terra natal. Era começo dos anos 70 e
ele tinha 18 anos. Foi quando ocorreram as primeiras manifestações.
Há quem
credite a explosão do gene adormecido ao rompimento com um ambiente familiar
superprotetor. Outros atribuem ao abuso de drogas – comportamento que a
medicina considera um gatilho possível – dos primeiros semestres na
universidade. Minha avó, que até hoje rejeita o diagnóstico oficial, especula
que tudo começou quando ele bateu a cabeça durante uma viagem de ônibus, num
solavanco mais vigoroso do veículo. O que se sabe ao certo é o que aconteceu a
partir daí: vieram crises e mais crises. Meu pai faltava a boa parte das aulas.
Sumia por dias a fio sem dar notícias, e quando voltava aparecia com os olhos
esbugalhados, tremendo e dizendo coisas sem sentido. Era uma visão assustadora
para minha família. Um terror amplificado pela ignorância de não fazer ideia do
que estava acontecendo com ele, tão normal e estudioso até pouco tempo. Às
crises se intercalavam tentativas de retomada da vida. Foram três faculdades
iniciadas na Universidade Federal de Santa Maria, nenhuma jamais concluída; um
período no curso de formação de tenentes do Exército; um punhado de
empregos com amigos da família. Alguns anos mais tarde, de volta a Santo
Ângelo, ele ainda tentou estudar direito, mas não concluiu o curso. Foi seu
derradeiro esforço. Pelos anos seguintes, meus pais, meu irmão e eu vivemos da
renda de imóveis da família, administrados com surpreendente tino por meu pai.
Ele só
não desistiu da música. Tocava violão. Cresci ouvindo-o dedilhar Beatles,
Roberto Carlos e Renato e Seus Blue Caps. Cantava muito bem e sabia ser o
centro das atenções. As festas de família em que empunhava o instrumento e
soltava a voz sempre me pareceram ser seus momentos mais felizes, quando de
alguma forma ele conseguia fazer com que as coisas dessem certo.
Ainda
assim, está ligada à música uma das lembranças mais vívidas que tenho da sua
esquizofrenia. Eu era adolescente e estava aprendendo a tocar violão. Já
conseguia executar algumas canções, porém era incapaz de afinar o instrumento.
Pedi a meu pai que o fizesse. Ele sentou ao meu lado, na cama, e começou a
arpejar as cordas com o polegar direito, enquanto girava as tarraxas com a
outra mão. Estranhei os gestos dele, tocando todas as cordas abertas, isto é,
sem usar a mão esquerda. Em geral, tocam-se as cordas aos pares na quinta casa
do braço, descendo do bordão até a prima, e afinando uma pela outra (quinta
pela sexta, quarta pela quinta etc.). Mas aquele era um momento tão raro – nós
dois compartilhando alguma coisa – que não prestei muita atenção ao método. Fiquei
apenas ouvindo o que meu pai me dizia enquanto ajustava o instrumento.
Ele tinha
acabado de tomar banho e cheirava a sabonete, um odor ácido e frutado. Falava
de teoria e técnica musical. A formação dos acordes, o arpejo, o dedilhado. Um
pai ensinando algo ao filho, um momento tão banal, tão comum, e justamente por
isso tão especial para mim. Quando ele me entregou o instrumento, armei um dó
maior com a mão esquerda e toquei confiante. O violão ecoou um som tão caótico
que até meu ouvido inexperiente percebeu que havia algo muito errado. Testei um
lá maior. De novo, dissonância. Fiquei atordoado. Eu já tinha visto meu pai
afinar um violão dúzias de vezes. E no entanto ele havia passado dez minutos
regulando aquelas cordas que agora pareciam refletir a mente dele: um todo
desajustado de onde é impossível extrair alguma coerência. Nem mesmo quando
toquei os acordes e produzi sons indecifráveis ele percebeu o que estava
acontecendo.
Em
segundos, vi perplexo ruir nosso momento pai e filho. Eu sabia que não ia
conseguir falar nada para ele. Temia o terreno em que pisaríamos se eu dissesse
o óbvio: “Pai, não tá afinado.” Eu não seria capaz de esfacelar a normalidade
daquele momento, ainda que ela fosse só aparente e, afinal, ilusória. Meu pai
se levantou e saiu. Fiquei sozinho na cama, com um violão desafinado e um
cheiro de sabonete que nunca mais esqueci.
Meu irmão e eu gostávamos de ir aos jogos do Passo
Fundo, time de futebol da cidade onde nossa família, incluindo meus avós
paternos, foi morar no começo dos anos 90. Um dia, para nossa grande surpresa,
o pai quis ir junto. Lembro como meu irmão, que na época devia ter uns 9, 10
anos, ficou empolgado. Em geral quem nos acompanhava em qualquer atividade, dos
deveres da escola até comprar doces na esquina, era nossa mãe ou avô, que
sempre foi muito próximo e fez o possível para suprir o papel da figura
masculina na nossa criação. Aos jogos, íamos somente meu irmão e eu. Mas
naquele dia ele foi com a gente. Chegamos ao estádio e nos sentamos no concreto
morno da arquibancada, alinhados com o meio de campo. O dia estava quente e não
nos importamos com o sol que nos fazia apertar as pálpebras. Era um momento
estranho. Feliz mas estranho, pois não tínhamos muita intimidade com nosso pai.
Como ele varava as madrugadas e dormia boa parte do dia, nossas rotinas quase
não se encontravam.
Acho que
mal haviam se passado quinze minutos de jogo quando ele disse que queria ir
embora. Ficamos sem reação. Ele tentava se desculpar, dizendo que infelizmente
não tinha como seguir ali com a gente. Começou a descer a arquibancada, sem
olhar para trás, a cada passo ficando menor aos nossos olhos. Ele já ia longe
quando meu irmão conseguiu expressar a raiva que estava sentindo. Xingava e
amaldiçoava com a voz embargada, segurando as lágrimas como quem sabe que negar
o choro a alguém às vezes é a única vingança possível. Não senti nada. Talvez
por estar acostumado a jamais criar expectativas positivas referentes a algo
que envolvesse meu pai, como uma criança que sabe que seu balão sempre vai
estourar antes de encher. Ou, por ser três anos mais velho, eu tivesse
maturidade suficiente para entender que havia uma doença maldita dentro da
cabeça dele, um parasita voraz que envenenava e consumia seu cérebro,
impedindo que ele fizesse o que mais queria: ser um pai de verdade.
É
exatamente aí que está o sofrimento mais devastador dessa doença: não existe
nenhum parasita. Nunca houve uma separação entre o cérebro sadio e o bicho que
o contaminava. A esquizofrenia e a mente do meu pai eram uma coisa só,
indissociáveis. E por isso eu nunca soube, nem nunca vou saber – de tudo que
ele me disse e fez, de tudo que deixou de me dizer e fazer –, quando ele era
ele mesmo e quando estava sob influência da doença. No dia em que disse que
sentia muito orgulho de mim, sentia mesmo isso ou estava apenas tendo um
delírio, imaginando um filho que não era o dele? Como posso considerar
verdadeira e sincera uma lembrança se desde pequeno fui ensinado a julgar seus
atos como frutos de uma mente doente?
No outono de 2003, minha mãe saiu de casa. Eu soube
por telefone – àquela altura, já estava na faculdade em Porto Alegre havia
quase dois anos. Nessa mesma ligação, pela primeira vez alguém me disse alguma
coisa concreta sobre a doença. “Teu pai tem esquizofrenia. Me sinto muito
infeliz e sozinha”, ela falou. A sinceridade brutal foi a forma que encontrou
para tourear o medo de que meu irmão e eu ficássemos contra ela. Isso não
aconteceu. Meu pai não era culpado da doença, tampouco minha mãe. Na verdade, o
que senti depois daquele telefonema foi uma enorme gratidão por ela ter
suportado tanto tempo. Por ter esperado até que ficássemos adultos para ir
atrás da sua felicidade. Minha mãe casou aos 19 anos, grávida de mim. Jovem e
ingênua, achava que o comportamento excêntrico do meu pai era resultado das
muitas horas de estudo. Nunca lhe passou pela cabeça perguntar por que aquele
homem dez anos mais velho não conseguia concluir nenhuma faculdade. Como meus
avós jamais se imiscuíram na vida sentimental do filho, minha mãe casou sem
saber que meu pai era esquizofrênico.
Pouco
mais de um mês depois da partida da minha mãe, meu pai teve um mal-estar
estomacal violento. A suspeita primeiro recaiu sobre uma lata de pêssegos em
calda aberta havia muitos dias. Medicado, ele melhorou, mas ao longo das
semanas seguintes as indisposições foram ficando mais frequentes, até que o
médico pediu exames mais detalhados. Só então o diagnóstico surgiu: um tumor no
intestino, grande o suficiente para praticamente bloquear
o processo de digestão.
o processo de digestão.
Meu pai
foi operado para remover o tumor e passou por um período de quimioterapia.
Mudou-se para a casa dos meus avós, emagreceu, parou de fumar. Não perdeu o
cabelo, mas padeceu os enjoos do tratamento. Só fui visitá-lo depois de algumas
semanas. De algum modo, eu tinha construído uma redoma em Porto Alegre, um
espaço onde a fugacidade do convívio com meu pai me desobrigava de fingir que a
doença não existia. Foi difícil destruir esse pequeno ecossistema de ilusão e
encarar que agora eram dois os males a devastar a vida daquele homem.
Daquela
época data um texto em que ele relata uma série de revezes na família. Com sua
caligrafia impecável, ele narra a partida da minha mãe, a descoberta e o
tratamento do câncer, entre incidentes menores como uma batida de carro em que
minha avó quebrou o braço, uma mordida que meu avô levou da cachorrinha da
família etc. No fim, conclui: “Não sei por que tanta perseguição.”
Guardo
esse texto comigo. Sempre que o leio, me lembro de uma cena de Os Leões de
Okavango, documentário do canal National Geographic sobre uma família de
leões que perde o patriarca em uma disputa territorial com um grupo da mesma
espécie e é forçada a procurar outro lugar para viver. Sem parceiro e com três
filhotes pequenos, a leoa Ma di Tau foge sem rumo. Poucas horas depois, já viu
um dos rebentos ser devorado por um crocodilo, está exausta, sem abrigo nem
comida para dar aos dois sobreviventes, e ainda precisa permanecer vigilante o
tempo todo. Nesse momento, ouvimos a voz grave do ator Jeremy Irons, narrador
do filme, anunciar mais ou menos o seguinte: “E mais um dia amanhece no delta
do rio Okavango, totalmente alheio ao sofrimento de Ma di Tau.” Não importa se
é Ma di Tau, meu pai, eu. A natureza não dá mole: não tem piedade ou comiseração,
não avalia quanto sofrimento cada um pode suportar. Depois de um dia que se foi
chega outro, e depois mais outro e ainda outro, independentemente da nossa
vontade de que o tempo retorne, ou congele, ou deixe de acontecer.
Em algum momento no começo dos anos 90, meu pai
decidiu suspender a medicação. Minha mãe, ciente de que a vida normal seria
inviável, passou a moer o comprimido de Haldol e misturar no suco que servia a
ele no almoço. Nós, crianças ainda, não percebíamos como era curioso ele ter um
copo separado, em que ninguém podia tocar. Minha mãe conta que quando meu irmão
ou eu reclamávamos que o suco estava muito azedo, ou aguado, meu pai
gentilmente oferecia o dele. Eram pequenos momentos de desespero para ela. Para
acabar com situações assim, um dia ela nos contou o que vinha acontecendo nos
últimos meses. Enfatizou que sob hipótese alguma deveríamos beber um gole que
fosse, mesmo que o pai insistisse. Mais alguns meses se passaram e ela nos
chamou para dizer que revelaria a ele o truque do remédio no suco. Estava
nervosa com a conversa, com a possível reação dele. Para alívio de todos, ele
entendeu, agradeceu e voltou a se medicar normalmente.
Foi
também nessa época que meu irmão e eu passamos por uma avaliação com uma
psicóloga. Íamos ao consultório e fazíamos desenhos, jogávamos ou simplesmente
conversávamos. Ela concluiu que estava tudo bem com a gente, não identificou
nenhum traço ou propensão para a esquizofrenia.
Apesar de
tudo, tive uma infância feliz. Meu irmão e eu crescemos muito próximos, com
muitos amigos. Meus avós paternos foram presenças constantes – era para a casa
deles que eu ia todos os finais de semana e durante as férias. Minha mãe sempre
foi incrível. Até hoje adoro o Natal, certamente pelas boas lembranças. Não
acho que a doença do meu pai tenha feito a minha vida difícil ou que o
sofrimento tenha me trazido uma sabedoria especial.
Três anos depois da cirurgia para retirar o tumor,
meu pai começou a reclamar de fortes dores nas pernas. Como as pontadas
irradiavam da coluna em direção aos pés, o médico logo diagnosticou um problema
no nervo ciático. Ao longo das semanas seguintes, ele passou a sentir
dificuldade em se locomover e ficava boa parte do dia na cama. Fui visitá-lo
nesse período. Estávamos no quarto que ele ocupava na casa dos meus avós; ele
deitado, eu sentado em uma cadeira aos pés da cama. Era uma tarde de começo de
inverno e o ar recendia a cobertores recém-retirados do armário. Estávamos
praticamente em silêncio. Não tínhamos muito assunto, então eu apenas ficava
ali, calado ou comentando trivialidades. Sabia que minha companhia bastava. De
repente, ele começou a chorar. Um choro desgarrado, daqueles que o sujeito fica
um tempo sem respirar e depois puxa o ar com força quase desesperada. Pensei
que estivesse sentindo muita dor e ensaiei alguma pergunta. Foi quando ele
falou: “Eu fracassei em tudo, meu filho. Em tudo. Sempre tinha alguém mais
forte que eu.”
Difícil
dizer se doeu mais perceber o quanto meu pai havia sofrido ao longo da vida ou
entender que, mesmo com a doença, ele sempre soubera que sua história tinha
sido uma sucessão de tentativas malogradas. Tentei consolá-lo. Disse que estava
enganado, que ele tinha muitas conquistas de que se orgulhar, seus filhos eram
os maiores exemplos disso – adultos independentes, íntegros como ele sempre
fora. Ao ouvir isso, se acalmou. Acenou positivamente com a cabeça enquanto
limpava as lágrimas nas costas das mãos. Então retomamos o silêncio.
Pouco
depois dessa visita, os médicos descobriram que as dores provinham de uma
metástase na região lombar da coluna, que esmagava a medula conforme ia
crescendo. Os exames apontaram ainda outro tumor semelhante, perto da cervical.
Meu pai chegou a se operar para retirar a metástase da lombar, uma cirurgia
difícil, de recuperação dolorosa e pouco efeito prático, que apenas nos
proporcionou a sensação de que havíamos tentado tudo.
A última
vez que o vi vivo foi quando mostrei a ele as fotos da minha formatura.
Precisei segurar cada uma das imagens sobre a cama, ele já não podia movimentar
os braços. Meu pai, que havia chorado semanas antes ao ver o vídeo da
cerimônia, da qual eu tinha sido o orador, dessa vez sorriu orgulhoso.
A morte
do meu pai alterou a dinâmica com que eu havia encarado sua doença a vida toda.
Não havia mais motivo para fingir normalidade em relação a nada. Meu pai agora
estava morto, era uma lembrança, e lembranças podem até mexer em feridas
antigas, mas não criam novas. Comecei a encaixar meu pai na minha história de
vida, doente como ele de fato sempre havia sido e eu nunca tinha conseguido
aceitar. Passei a falar da doença dele com os amigos, a namorada, minha mãe,
meu irmão. Aos poucos substituí em meu passado o pai que ficava em casa
cuidando dos negócios da família pelo pai medicado com Haldol.
Eu tinha quase 20 anos quando disse pela primeira
vez a frase “Meu pai é esquizofrênico”. Até dois anos antes, ao ler a bula de
um dos medicamentos dele, não tinha certeza se o diagnóstico era mesmo esse.
Estava falando ao telefone com uma amiga, colega de faculdade, sobre o genérico
tópico “problemas da vida”, e anunciei que tinha algo para contar. Um segredo
que nunca havia revelado a ninguém. Na hora, minha voz travou. Antes de dizer,
precisei me livrar dos vinte anos de bloqueio e vomitar tudo que engoli a vida
inteira fingindo que a doença não existia. Quando as palavras finalmente
saíram, fiquei esperando a reação dela. Espanto, horror ou, pior, pena? Mas ela
reagiu com naturalidade. E eu entendi que meu maior drama era apenas um drama,
o meu, e não o mais pavoroso de todos.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Como se fabricam crianças loucas
Como se
fabricam crianças loucas
http://brasil.elpais.com/brasil/2014/03/17/opinion/1395072236_094434.html
Em uma
noite de novembro de 2007, a psicóloga Flávia Blikstein escutou de uma menina
duas perguntas. E descobriu que não tinha respostas. Flávia trabalhava num
Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) infantil, em São Paulo, e encontrava-se
na ambulância para levar a garota para sua primeira internação psiquiátrica.
Maria, como aqui será chamada, tinha 14 anos. Era negra, alta e magra. Falava
pouco, frases curtas. Gostava de brincar de boneca e de desenhar. Às vezes
pintava as unhas, arrumava o cabelo, anunciando a adolescência. Maria se
molhava o tempo todo, em pequenos rituais. Abria a torneira, fazia uma
conchinha com as mãos e molhava os pés, as pernas, os braços. Fazia isso em
qualquer lugar, causando vergonha à mãe. Talvez Maria estivesse esculpindo com
a água os limites do próprio corpo. Quando fez a primeira pergunta à Flávia,
ela ainda tinha as pontas dos dedos úmidas, e o seu olhar também era molhado:
- Por que
eu vou ficar aqui?
Flávia
descobriu que não tinha resposta.
Maria fez
então a segunda pergunta:
- Quem tá
aí? Quem vai dormir no quarto comigo?
Flávia
descobriu que não tinha resposta também para essa. Não tinha resposta porque,
ao contrário do que costuma acontecer quando crianças e adolescentes nos
mostram a face do abismo, ela tinha escutado as perguntas. Escutado mesmo. A
“menina louca” tinha indagado sobre a estrutura do Estado e da sociedade que a
obrigava a dar o primeiro passo para dentro de uma instituição psiquiátrica.
Talvez Maria intuísse que esse passo poderia ser longo. Talvez Maria
adivinhasse que os dentes do sistema estavam à sua espera, logo ali.
Flávia
abraçou Maria. E pediu desculpas por não saber responder. Maria entrou,
carregando olhos molhados e pontos de interrogação.
A “menina
louca” tinha indagado sobre a estrutura do Estado e da sociedade que a obrigava
a dar o primeiro passo para dentro de uma instituição psiquiátrica
O que
Maria perguntou à Flávia, perguntou a todos nós: por que, no século 21,
crianças e adolescentes brasileiros, a maioria filhos de famílias pobres,
continuam a ter suas vidas mastigadas num hospital psiquiátrico. A “criança
louca” fez aos normais a pergunta mais lúcida: por que a condenavam a uma
existência de manicômio. A habitar um mundo de dor, vagando entre paredes,
desvestindo a si mesma para vestir um uniforme, sem direito ao desejo. Por que
lhe negavam a humanidade tão cedo.
Flávia
não pôde esquecer as perguntas, menos ainda a sua falta de respostas.
Dedicou-se a buscá-las. Encontrou-as no arquivo do Núcleo da Infância e da
Adolescência (NIA) do Centro de Atenção Integrada em Saúde Mental (CAISM)
Philippe Pinel. O Pinel é uma das instituições de referência para internação de
crianças e adolescentes com problemas mentais no estado de São Paulo. Flávia
sabia que aquilo que se costuma chamar de arquivo morto era bem vivo. Então,
botou-o para falar. Fechou-se na pequena sala bordada de estantes durante todos
os sábados de um ano inteiro. Analisou 451 casos, correspondentes a 611
internações ocorridas entre janeiro de 2005 e dezembro de 2009. Destes, 79% das
crianças e adolescentes haviam sido internados apenas uma vez. Os 21% restantes
tiveram de duas a sete reinternações. Alguns casos, que continuaram a voltar ao
Pinel, ela acompanhou também nos anos de 2010 e 2011. Flávia queria saber qual
era o percurso que levava crianças e adolescentes ao hospital psiquiátrico como
primeira providência – e não como exceção pontual e por tempo determinado.
O arquivo
do Pinel ficava logo abaixo da enfermaria das crianças e adolescentes. Enquanto
pesquisava, Flávia podia ouvir os gritos. Percebeu, porém, que mais do que
gritos havia um silêncio longo. Um silêncio, nas suas palavras, “estranho e
profundo, um silêncio que não imaginamos num lugar cheio de crianças e
adolescentes”. Dentro do arquivo, não. Os prontuários contavam histórias. Ainda
que a voz de meninos e meninas ressoasse mais nas ausências, nas entrelinhas,
os prontuários diziam de infâncias aniquiladas numa vida de manicômio. E
mostravam por que caminhos a fabricação de crianças loucas é uma verdade
profunda do Brasil. Flávia chamava o arquivo de “sala das almas”. E as almas
falavam.
Duas crianças,
que se transformaram em adolescentes no hospital psiquiátrico, contaram
histórias que poderiam ilustrar livros escabrosos sobre os manicômios do
passado, mas que se passaram na primeira década desse século. Aqui, elas serão
chamadas de José e de Raquel. José permaneceu confinado por 1271 dias – ou três
anos e cinco meses. Raquel, por 1807 dias. Ficou trancada dos 11 aos 16 anos –
e de lá foi transferida para outra instituição psiquiátrica. José e Raquel
estavam segregados no Pinel, a mando da Justiça, sob reiterados protestos da
equipe técnica. Foram depositados como coisas no Pinel porque ainda é este o
destino dado a crianças como eles no Brasil.
Por quê?
Flávia
sabia que aquilo que se costuma chamar de arquivo morto era bem vivo. Então,
botou-o para falar. Analisou 451 casos, correspondentes a 611 internações
ocorridas entre janeiro de 2005 e dezembro de 2009
É preciso
prestar muita atenção às respostas que Flávia encontrou. Sua escuta de três mil
horas dentro do arquivo transformou-se numa
dissertação de mestrado em psicologia social na Pontifícia
Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Somando-se a trabalhos fundamentais
de outros pesquisadores do tema, tanto em São Paulo como em vários estados do
Brasil, a investigação mostra por que os manicômios persistem apesar das
diretrizes da política de saúde mental e do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA). A Lei nº 10.216, de 2001, orientada pela reforma
psiquiátrica, prioriza o atendimento em rede, em serviços inseridos na
comunidade, perto da família, e determina que a internação só pode ocorrer
depois de esgotados todos os recursos extra-hospitalares. Não é o que acontece
em casos demais.
“Medievais”,
“desumanos” e “criminosos”. Essas são algumas das palavras usadas para definir
os hospícios desde que a luta antimanicomial se intensificou a partir do final
dos anos 1970 e conquistou avanços significativos nesse século. A pesquisa
mostra, porém, que mesmo instituições e profissionais que tentam fazer
diferente são seguidamente vencidos pelas engrenagens e pela escassez de
serviços públicos de base. Na prática, ainda hoje, é de manicômio e de vida
manicomial que se trata em uma parte significativa dos casos, uma realidade só
possível pelo descaso quase absoluto da sociedade com o destino dessas
crianças, em geral filhas de famílias pobres. Ao fazer o arquivo morto falar,
Flávia constrói respostas que precisam ser escutadas se quisermos, de fato,
estancar o crime de fabricar crianças loucas – e, muitas vezes, também o de
conseguir enlouquecê-las.
Raquel
nasceu em 1994. A mãe estava presa por tráfico de drogas, não porque era chefe
de uma organização criminosa, mas porque vendia uma pequena quantidade para
sustentar seu próprio vício. Esse destino é comum nos presídios do país, é
também gerador de órfãos de mães vivas. Pobre demais para dar conta dela, a avó
colocou Raquel num abrigo aos cinco anos. A menina é de imediato descrita como
“agressiva”. E, por esse motivo, é afastada das outras crianças. Passa a morar
com o que se chama de “mãe social”, isolada numa casa nos fundos do abrigo. A
escolha, como mostra Flávia, evidencia que, desde sempre, a resposta à
agressividade de Raquel é a exclusão. Obviamente, também não deu certo. De
abrigo em abrigo, Raquel virou aquela que “não dava certo” em abrigo nenhum.
Talvez
valesse a pena perguntar se a agressividade, ao se olhar para o contexto e as
circunstâncias, não era o principal traço de sanidade de Raquel. Mas o direito
à história é o primeiro a ser arrancado das “crianças loucas”. Ela já tinha
quase tantos rótulos quanto anos de vida: filha de presidiária, abandonada,
agressiva, não dá certo... Raquel só era vista por estigmas e fragmentos.
Ela
queria saber qual era o percurso que levava crianças e adolescentes ao hospital
psiquiátrico como primeira providência – e não como exceção pontual e por tempo
determinado
Negra
como Maria, ela foi internada pela primeira vez em 2005, aos 11 anos. Entrou no
sistema por ordem da Justiça. Antes de seguirmos o seu destino, é crucial
entender as duas formas de entrada nas instituições psiquiátricas,
identificadas pela pesquisa. Nelas se encontra uma das chaves para compreender
a fabricação das crianças loucas no Brasil atual. Assim como os caminhos pelos
quais é mantida viva a função histórica dos manicômios como lugar de segregação
daqueles que são decodificados como perigosos para a ordem social, ainda que
sejam apenas pobres e abandonados.
Em pouco
mais da metade dos casos – 55% – o pedido de internação psiquiátrica foi feito
por familiares e por diferentes serviços da rede de saúde. Nos outros 45%,
crianças e adolescentes foram internados por ordem judicial. Estes são os dois
caminhos de entrada nos hospitais psiquiátricos. A pesquisa mostrou, porém,
algumas diferenças fundamentais para compreender o problema: no período
pesquisado, a Justiça internou mais cedo, por mais tempo e mais vezes. A
maioria dos casos era de adolescentes, mas as crianças respondiam por 20% das
internações por ordem judicial. Pela via da rede de saúde, menos de 6% eram
crianças. Por ordem judicial, o tempo médio de internação era quase o dobro (55
dias contra 30). A Justiça também foi responsável por 92% das internações com
duração maior do que 150 dias. Entre os 14 casos que sofreram internações de
quatro a sete vezes, 12 tinham sido confinados por ordem judicial.
Entre
eles, Raquel. Dos 11 aos 16 anos, ela foi internada seis vezes no Pinel. A
queixa da primeira vez: “Paciente institucionalizada há oito meses (nome de
outro hospital), com transtorno de comportamento, heteroagressiva
(agressividade dirigida a terceiros), em tratamento ambulatorial pouco
resolutivo”. Depois de seis dias, o Pinel deu alta e a menina foi encaminhada a
um abrigo. Oito dias mais tarde, ela foi novamente internada por ordem
judicial: “Paciente portadora de transtorno de conduta grave. Uma vez no
abrigo, voltou a ficar agressiva. Crítica seriamente comprometida, ameaçadora”.
Outros 19 dias de internação, e o Pinel pediu à justiça que ela tivesse alta.
Passada uma semana, o pedido foi atendido, e ela voltou ao abrigo. Mais três
dias e Raquel de novo foi internada no Pinel por ordem judicial: “Ao retornar
ao abrigo volta a apresentar quadro importante de liberação de agressividade e
falta de controle de impulsos”. Raquel ficou trancada no Pinel por 1004 dias.
Nessas
três primeiras vezes, tornou-se evidente que a justiça internava e o hospital
liberava, porque não havia razão para manter Raquel confinada. Documentos
anexados ao prontuário mostram que a direção da instituição enviou diversos
relatórios à justiça, tanto informando da alta médica da paciente quanto
pedindo encaminhamento a um abrigo e tratamento ambulatorial. Num dos
documentos, a direção afirma: “Nosso hospital está fazendo o papel de Abrigo
para esses adolescentes. Sabedores dessa ilegalidade pedimos com urgência uma
resolução para esse problema”. E, em outro ofício: “Atualmente a adolescente
continua residindo na enfermaria para tratamento de pacientes agudos,
encontra-se longe da escola e com enormes prejuízos psicológicos e sociais”.
“Medievais”,
“desumanos” e “criminosos”. Essas são algumas das palavras usadas para definir
os hospícios desde que a luta antimanicomial se intensificou a partir do final
dos anos 1970
A cada
três meses, o Pinel mandou ofícios à justiça. Só foi atendido depois de quase
dois anos e nove meses. Mas a vida de Raquel fora do hospital durou apenas uma
semana. Mais uma vez ela foi internada na instituição. O motivo: “Evolui com
episódios recorrentes de agressividade, fugas necessitando atendimento em
unidades de emergência. Há dois dias em acompanhamento no CAPS sem aderência ao
tratamento”. Depois de mais 413 dias de internação, Raquel fugiu do hospital.
Voltou espontaneamente dois dias mais tarde. Para onde mais ela iria, já que o
longo período de confinamento esgarçou ainda mais os frágeis vínculos
familiares e a impediu de criar novos?
Raquel
permaneceu internada mais 244 dias, antes de ser encaminhada a outro abrigo.
Quinze dias fora do hospital, e a justiça mandou-a de volta: “Jogou fora seus
remédios, quebrou o vidro da brinquedoteca, feriu-se, pegou o telefone para se
enforcar e fugiu para uma cidade vizinha dizendo que ia procurar seus avós”.
Na sexta
vez, está registrado no prontuário: “A paciente verbaliza que a maior
dificuldade que enfrentou no retorno ao abrigo foi uma sensação de inadequação
na convivência com adolescentes sem problemas psiquiátricos; infelizmente,
criou-se um vínculo inadequado iatrogênico (provocado pela própria prática
médica) de segurança com o ambiente de internação, o que se configura como Hospitalismo”.
Em outras
palavras. Raquel não sabia mais viver fora do hospital psiquiátrico, seus
vínculos estavam dentro da instituição. Se tinha a algum afeto, era ali. Era no
hospital que ela sabia como se comportar, identificava uma rotina, fazia amigos
entre outras crianças e adolescentes como ela ou realmente doentes. Considerava
profissionais de saúde como parentes. E, mais tarde se saberia, quebrava coisas
e agredia pessoas quando era mandada para o abrigo porque sabia que assim
voltaria àquele que era o único lugar parecido com um lar que tivera na vida.
No total,
Raquel ficou trancada no Pinel cinco anos. Sublinha-se: sem necessidade. Sua
vida cabe em três caixas do arquivo. Mas esse não foi o fim de sua trajetória
manicomial. Em 2010, aos 16 anos, ela foi transferida para outro hospital
psiquiátrico
Nessa
época, a direção do Pinel mandou mais um ofício à justiça: “Aproveito a
oportunidade para dizer da indignação dessa equipe técnica que, por diversas
vezes, acionou o judiciário solicitando a desinternação desses adolescentes
que, na ocasião, precisavam apenas de um abrigo para moradia e dar continuidade
ao atendimento ambulatorial, tendo assim seu direito constituído”.
No total,
Raquel ficou trancada no Pinel cinco anos. Sublinha-se: sem necessidade. Sua
vida cabe em três caixas do arquivo. Mas esse não foi o fim de sua trajetória
manicomial. Em 2010, aos 16 anos, ela foi transferida para outro hospital
psiquiátrico.
O
diagnóstico que sustentou a condenação de Raquel a uma vida manicomial é
bastante revelador: “transtorno de conduta”. Segundo a Classificação
Estatística Internacional de Doenças (CID), “os transtornos de conduta são
caracterizados por padrões persistentes de conduta dissocial, agressiva ou
desafiante. Tal comportamento deve comportar grandes violações das expectativas
sociais próprias à idade da criança; deve haver mais do que as travessuras
infantis ou a rebeldia do adolescente e se trata de um padrão duradouro de
comportamento (seis meses ou mais)”. Essa “patologia”, assim como outras que
compõem a CID, é contestada por parte dos psiquiatras, psicanalistas e
psicólogos, assim como por profissionais de outros campos do conhecimento. Mas,
ainda que se aceite que essa doença de fato existe, o tratamento recomendado é
inserção comunitária – e não asilamento.
Em sua
investigação, Flávia mostrou que o diagnóstico de “transtorno de conduta” tem
sido usado de modo generalizado – e quase displicente – para justificar
internações em hospitais psiquiátricos. Tanto na internação pela via da rede de
saúde como na internação por ordem judicial, o principal diagnóstico é
esquizofrenia. Mas o “transtorno de conduta” tem aumentado. Numa comparação com
uma pesquisa anterior, na qual Julia Hatakeyama Joia analisou os prontuários do
Pinel entre fevereiro de 2001 e agosto de 2005, Flávia constatou que os
chamados “transtornos do comportamento e transtornos emocionais” – dos quais
“transtornos de conduta” correspondem a 75% dos casos – cresceram como motivo
de confinamento. Em 2002, eram causa de 5,26% das internações. Passaram para
7,14% em 2005. E alcançaram 15,2% das ocorrências em 2009. “Em muitos casos, é
diagnosticado em crianças com episódios de descontrole e agressividade, sem que
exista uma análise sobre sua história e contexto de vida”, afirma a psicóloga.
Outro dado comparativo de extrema relevância é que, entre 2001 e 2004, a
proporção de internações no Pinel por ordem judicial era de 23% do total. De
2005 a 2009 saltou para 45%.
Em sua
investigação, Flávia mostrou que o diagnóstico de “transtorno de conduta” tem
sido usado de modo generalizado – e quase displicente – para justificar
internações em hospitais psiquiátricos
O
“transtorno de conduta” é bem mais recorrente na internação por ordem judicial
do que na internação pela via da rede de saúde. É o diagnóstico de um quarto
das internações com duração maior do que 150 dias e por mais de um terço dos
casos de crianças e adolescentes internados de quatro a sete vezes. É o rótulo
de Raquel – e também o de José. Meninos representam quase 80% das crianças e
adolescentes internados, um dado cujas razões precisam ainda ser melhor
compreendidas.
José
tinha 10 anos quando deu o primeiro passo para dentro do Pinel, por ordem
judicial. Tinha passado, segundo o relatório da instituição, por “maus tratos,
negligências e privação afetiva”. Apresentou “comportamentos desafiadores e
transgressores, o que resultou em rejeição e abandono familiar, principalmente
de sua mãe”. A mãe decidiu entregá-lo para o pai, na Bahia. No dia da viagem,
José recusou-se a ir. Ele não queria se separar da mãe. Para não ser obrigado a
viajar, por duas vezes tentou se jogar diante dos carros, na rua. A “crise de
agitação” levou à sua primeira internação. A duração: 623 dias.
Quando
teve alta, José foi encaminhado a um abrigo. Permaneceu apenas três dias antes
de ser internado novamente. Dessa vez, ficou trancado por 255 dias. José fugiu.
Para onde? Para a casa de mãe. Mais uma internação, por “agitação psicomotora
com intensa heteroagressividade, baixa tolerância à frustração, sem crítica, e
risco de vida”. Dessa vez, ficou 84 dias na instituição antes de fugir
novamente. Para onde? Para a casa da mãe. Na quarta e última internação, ele
permaneceu 309 dias no Pinel. Foi então encaminhado para um abrigo. De onde
fugiu. Para a Bahia, em busca de um lugar e de um afeto.
No total,
José ficou 1271 dias trancado no Pinel: três anos e cinco meses. Sobre José e
Raquel, a equipe técnica do hospital enviou um ofício à Justiça, em 2008:
“(...) Estão em alta médica, mas permanecem nesta enfermaria psiquiátrica para
tratamento de pacientes com transtornos mentais agudos, privadas de ter uma
vida digna, por não terem retaguarda familiar e não existirem vagas em
abrigos”. Sobre esse destino, Flávia afirma: “As internações são motivadas por
uma combinação complexa, que resulta numa situação de vulnerabilidade. A
resposta da internação psiquiátrica, além de redutora de complexidade, é ela
mesma produtora de maior sofrimento. A internação por ordem judicial revela uma
concepção sobre a infância e a adolescência pautadas no medo e no perigo.
Propõe uma resposta única a todas as situações, sem considerar diferenças,
singularidades e contextos. Reduz crianças e adolescentes ao status de paciente
psiquiátrico perigoso, produzindo sua cronificação”. É assim que se fabricam
crianças loucas.
Vale a
pergunta: fugir pode ter sido um ato de sanidade de José, na tentativa de não
ser enlouquecido? De algum modo, apesar de tudo e de todos, ele parece
acreditar que existe um lugar para ele, um lugar com afeto. José, Raquel e
Maria nos mostram que não há desamparo maior do que o de uma criança num
manicômio. Ninguém está mais sozinho nesse mundo do que José, Raquel e Maria.
Expostos a uma sociedade que, além de não protegê-los, os enlouquece. Eles
fogem, como José, eles quebram tudo, como Raquel, eles fazem perguntas, como
Maria. Mas estão sozinhos. E cada um de seus atos de resistência é mais um
carimbo de sua suposta loucura num arquivo morto.
O desafio
exposto pela pesquisa é também o de completar a reforma psiquiátrica no Brasil.
Crianças e adolescentes, segundo a legislação, devem ser tratados dentro da
comunidade, junto à família, sem afastamento da escola
Ao
analisar os prontuários, Flávia conseguiu identificar claramente as diferenças
entre a internação via rede de saúde e a internação por ordem judicial. Essas
são conclusões cruciais do trabalho, porque apontam o que funciona e o que não
funciona, apontam saídas. Na rede de saúde, a maior parte dos encaminhamentos é
feita pela emergência de hospitais, o que não é o melhor percurso. Apenas 8%
são enviados para internação por Unidades Básicas de Saúde ou por CAPS (Centro
de Atenção Psicossocial) infantil, que deveriam ser a porta de entrada para
crianças e adolescentes com sintomas de doenças mentais. Esses dados demostram a
falta desses serviços, causando desamparo na população que necessita de
assistência pelo SUS. Em vez de começarem o tratamento pela rede básica,
inserida na comunidade, o iniciam pelo fim e por aquilo que é uma exceção
necessária num mínimo de casos: a internação. A hipótese de Flávia é de que, se
houvesse mais serviços comunitários de saúde mental, como está previsto na
legislação, é provável que a necessidade de internação fosse bem menor. Em vez
do hospital psiquiátrico, uma rede articulada, com investimento maior em
equipes de saúde mental, na capacitação e implantação do Programa de Saúde da
Família e de centros de atenção psicossocial. “A patologização das crianças em
situação de vulnerabilidade social evidencia a precariedade da rede de atenção
e cuidado, e também a insuficiente articulação entre as políticas públicas nos
campos da educação, saúde, habitação e lazer”, afirma.
A
diferença é clara na análise dos dados. Nos casos encaminhados pelos Centros de
Atenção Psicossocial, a média de dias de internação é mais baixa do que pelos
outros caminhos. Quando crianças e adolescentes são cuidados pelos CAPS depois
da alta, apenas 3% são reinternados. “Isso mostra que os serviços comunitários
funcionam, mas são em número insuficiente”, afirma Flávia. “Nos pacientes
encaminhados pela rede de saúde, o hospital funciona como enfermaria de crise.
A maioria é de adolescentes de 15 a 17 anos, em seu primeiro surto psicótico,
que são cuidados e liberados. Já na internação por via judicial, o hospital
funciona como instituição de asilamento.”
O desafio
exposto pela pesquisa é também o de completar a reforma psiquiátrica no Brasil.
Crianças e adolescentes, segundo a legislação, devem ser tratados dentro da
comunidade, junto à família, sem afastamento da escola. A doença, se de fato
existe, deve ser compreendida como uma das várias características – e não como
a verdade única sobre aquela criança e adolescente. Mesmo a internação, se for
necessária, deve ser entendida como uma parte da história – e não como a
história inteira. A internação é um momento, não um destino.
Flávia
permanecia das 10h até as 21h de cada sábado na sala das almas do Pinel. Numa
noite, estava tão mergulhada nos prontuários que se esqueceu da hora e se
atrasou para sair. O guarda do portão recusou-se a deixá-la ir. Eram as regras.
Ele não estava ali para pensar sobre elas, mas para cumpri-las. E Flávia soube
o que era estar entre muros – e não ser escutada. Depois de um tempo que
pareceu largo demais, Flávia conseguiu provar que era uma psicóloga, fazendo um
trabalho de pós-graduação para a PUC. Acredita que o fato de ser branca, loira
e de olhos azuis possa ter ajudado na sua “soltura”. Mas, ao abrir o portão, o
segurança alertou: “Na próxima vez, fica”. Por um momento, trêmula, Flávia teve
uma tênue aproximação do que sentiram Raquel, José e Maria, apenas três entre
as centenas de “crianças loucas” fabricadas nesse século.
Ao final
de sua estadia no arquivo morto que ela descobriu ser vivo, Flávia finalmente
tinha as respostas para Maria.
1) Por que
eu vou ficar aqui?
- Porque
as instituições que compõem a rede de atendimento à criança e ao adolescente
trabalham de forma desintegrada e não conseguem atender às suas necessidades.
2) Quem
tá aí? Quem vai dormir no quarto comigo?
- As
crianças e os adolescentes que tiveram seus destinos produzidos ativamente pela
desresponsabilização e pelo abandono.
Maria
perguntou. Flávia escutou. Escutou de fato não quando a ouviu, mas quando fez o
movimento de buscar as respostas. Elas estão aí, mas só provocarão mudança se o
Estado, os governos e a sociedade as escutarem. Se nós as escutarmos. É,
afinal, de escuta que se trata.
Flávia
desconhece o paradeiro de José. Raquel foi libertada ao completar 18 anos. Mas
o que há para Raquel depois do que fizemos com ela? É possível, é moral, é
decente dizer à Raquel: vá estudar, vá trabalhar, vá construir uma vida? “É uma
marca tão profunda que pessoas como Raquel, mesmo saindo da instituição,
continuam institucionalizadas”, diz Flávia. “A institucionalização parece uma
grande máquina que suga a potência humana, criando seres humanos sem desejo. A
institucionalização é a patologia mais grave da saúde mental.”
Aos 19
anos, Raquel hoje perambula pelas ruas e albergues de São Paulo, ao redor das
instituições. Às vezes declara-se “louca” e é internada por curtos períodos.
Raquel sempre pergunta pelo seu melhor amigo:
- Onde
está José?
Eliane Brum é escritora, repórter e
documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da
Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada,
Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Email:
elianebrum@uol.com.br. Twitter: @brumelianebrum
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