quarta-feira, 9 de outubro de 2013

NEUROCIÊNCIA

 

“Neurociência para tudo é bobagem”

 http://charlezine.com.br/neurociencia-para-tudo-e-bobagem/#print

Raymond Tallis
A revista Galileu entrevistou o filósofo britânico Raymmond Tallis, que critica a moda entre os cientistas de explicar qualquer aspecto do comportamento humano apenas lendo ondas cerebrais. Ter preconceito contra o tema é algo do qual ele não pode ser acusado, pois além de boa parte das suas quase 200 pesquisas tratar do cérebro, Tallis coordenou a construção do Centro de Neurociência de Manchester, na Inglaterra, e se transformou em um especialista mundialmente respeitado em doenças neurológicas em idosos.
Apesar disso, ele acha que essa conversa de “neuro” está indo longe demais. Médico, crítico literário e filósofo — e referência na Inglaterra nas três áreas —, Tallis diz que usar a atividade cerebral para explicar todos os aspectos do comportamento humano pode colaborar com um novo tipo de darwinismo social. Em seu livro Aping mankind (“Humanidade primata”, sem edição no Brasil), ele afirma ver riscos na volta da ideia, usada durante o nazismo, de que teorias científicas baseadas no cérebro podem ser usadas para formular leis e conceitos sobre ética.
Confira a entrevista na íntegra:
Por que estamos tentando explicar tudo pela neurociência?
Em parte por causa dos extraordinários avanços da área depois de mais pesquisadores terem acesso a equipamentos de ressonância magnética funcional [que tira “fotografias” da atividade do cérebro]. Eu mesmo fiz minhas contribuições para a neurociência. Só que essa evolução no entendimento do cérebro faz com que as pessoas confundam o fato de a atividade cerebral ser uma condição necessária para a consciência com a noção de que ela em si seria a própria consciência. É o que chamo de neuromania: achar que tudo que somos se deve ao cérebro e que a neuroatividade é a mesma coisa que nossa consciência.
Estamos enxergando a nossa mente como uma simples máquina?
Exatamente. Se passamos a achar que a consciência é apenas fruto de um conjunto de atividades cerebrais, basta compreender esses mecanismos para fazer nós mesmos funcionarmos melhor. Quem tem esse tipo de pensamento acha que a neurociência pode ser usada para fazer políticas sociais. Agora, dizem que não deveríamos nos preocupar com ideologia da direita ou da esquerda, mas com o que o hemisfério direito faz, ou com o que o hemisfério esquerdo coordena.
Mas há cientistas estudando drogas para mudar o comportamento, como a oxitocina.Só posso rir ao ouvir isso. Quando era estudante, a oxitocina era a substância responsável por fazer o útero contrair. Agora, as pessoas viram que ela tem efeito, em alguns roedores, de fazer eles ficarem mais fiéis aos outros. Mas não há a possibilidade de administrar essa droga e transformar todo mundo numa espécie de zumbi moral, isso é bobagem. Se parar para pensar, há um problema maior nas formas mais tradicionais de manipular a mente humana, como o álcool.
O fato de algumas substâncias poderem mudar nossas atitudes coloca em dúvida a noção de livre arbítrio. Pesquisadores dizem ser impossível encontrar evidências de que ele existe.
Eu acredito em livre arbítrio e a razão pela qual os neurocientistas não conseguem encontrá-lo é porque têm uma aproximação em terceira pessoa, ou um ponto de vista objetivo sobre isso. Eles nos vêem, inescapavelmente como objetos materiais num mundo material. Não há como ver livre arbítrio dentro disso. Se você retira o ser em primeira pessoa, a liberdade desaparece. Isso traz a questão de também um determinismo cultural. Pensadores sugerem que você só pode ter livre arbítrio se não há influências sobre você, incluindo as influências que vêm do fato que você nasceu de um jeito e não de outro. Você não escolheu ser de um jeito em particular. Na minha visão, o livre arbítrio não vem de três coisas. Uma é que nós somos, em substância, os autores das nossas ações, no sentido que elas não teriam ocorrido sem nós. A segunda, é que essas ações expressam nós mesmos. A terceira é que nós devemos refletir as causas dos eventos. Se você olha o que criamos coletivamente, nós criamos um mundo inteiro fora da natureza. Você nunca achará o livre arbítrio olhando com os instrumentos errados, que são os instrumentos da neurociência. Se você procurar pelo livre arbítrio no lugar certo, você o encontrará.
Quais são os instrumentos corretos?
Certamente não são scanners cerebrais. Para ver isso, devemos olha para o dia a dia. Se eu caio das escadas, isso claramente não é uma ação de livre-arbítrio como eu falar contigo. Se eu tenho um ataque epiléptico, isso não é uma ação livre do mesmo jeito que é escrever um livro sobre epilepsia. Nós podemos notar nos eventos que nos cercam que alguns são claramente expressão do mundo físico e biológico e outros são claramente diferentes disso. As minhas ações fazem sentido para mim dentro do tipo de pessoa que eu me tornei e que eu fiz eu mesmo me tornar por décadas. Veja o aprendizado. Eu aprendo me posicionando para adquirir os fatos com minha experiência. Animais não ensaiam as coisas, não praticam as coisas. Eles não se esforçam para adquirir comportamentos adaptativos. Simplesmente acontece. Isso é bem diferente de nós.
O que são as pseudo-disciplinas que você cita em seu livro?
Normalmente essas disciplinas são um híbrido usando “neuro” ou “evolucionário” e alguma coisa. Por exemplo, neurodireito, neuroestética, neurocrítica literária, ética evolucionária, teologia evolucionária… São pseudo porque a neurociência tem muito pouco a dizer sobre o objeto particular de seus estudos. Até quando a neurociência parece ajudar em algo relevante, é prematuro usá-la para tirar tais conclusões.
Em que situação é prematuro, por exemplo?
Pegue a neurociência usada em crítica literária. Alguns dizem que se realmente queremos entender a resposta de um leitor a um livro, precisamos olhar ao que o cérebro desse leitor faz enquanto ele lê. Você pode expor pessoas a sentenças individuais ou palavras e ver como o cérebro responde, se a palavra ativa áreas relacionadas a qualidades poéticas. Só que, na verdade, ler um livro está longe de ser uma resposta a uma série de estímulos associados com palavras. É se engajar com o mundo que está se abrindo na sua frente, questionar a posição do escritor, imaginar o que está acontecendo, ser um pouco crítico sobre a verossimilhança da história e pensar no que isso poderia te trazer sobre o mundo em geral. O leitor não é apenas um cérebro que está respondendo a algumas sucessões de estímulos discretos, é um ser que está respondendo no nível mais alto a um trabalho de arte extremamente complexo.
Mas e no futuro? Será possível ter uma conclusão só por dar uma olhada em complexos padrões cerebrais?
Quando temos um pensamento, nós conseguiremos um dia ter uma ideia completa e detalhada de qual é a atividade cerebral correspondente a um pensamento? Minha opinião é que não. Algumas vezes nesta manhã eu pensei: “Ah, vou ter uma conversa com aquele cavalheiro do Brasil”. Esse pensamento nunca tomou a mesma forma no meu cérebro duas vezes. Qualquer pensamento tem inúmeras possibilidades de formas de ser realizado dentro da nossa mente. Claramente, não há uma parte da atividade no meu cérebro correspondente a ter uma conversa com você hoje. Mas há uma questão ainda mais profunda nisso. Vamos supor que nós temos a capacidade de fazer estudos no meio da vida real, por exemplo, de alguém se sentindo enciumado porque a pessoa amada está saindo com alguém. Vamos supor também que nós possamos gravar cada pequena neuroatividade observada nessa situação real. O que temos? Nós temos a descrição de alguns neurônios sendo acionados e alguns não. Nós temos uma gigantesca base de dados de 0 ou 1 disso. Eu não tenho certeza que isso poderia me dizer qualquer coisa sobre o estado de estar apaixonado ou revelar alguma coisa para mim que eu já não soubesse da minha própria experiência ou de ler de experiências de outras pessoas.
Não seríamos capazes de interpretar esses dados?
Não nos levaria a lugar algum. Quebrar o nosso amor em partes que supostamente estariam relacionadas não nos levaria a nenhum lugar no entendimento do que é realmente o amor. É como descrever a minha jornada para um bar encontrar com meus amigos em termos de uma mecânica newtoniana, um monte de movimentos e a energia dispendida. Isso não iria mostrar nada sobre meu prazer em ver os meus amigos no bar.
Esse tipo de pensamento estaria reduzindo à nossa humanidade?
Certamente. Reducionismo está em tudo. E a manifestação mais óbvia de reducionismo está em reduzir o mundo ao redor a uma série de estímulos discretos. O que mais me impressiona são os estudos relacionados ao amor. Sandy Zacki and Ananda Spartels, por exemplo, expuseram voluntários a uma sucessão de fotos com pessoas das quais eles eram amigos. Depois, mostraram a eles fotos de pessoas pelas quais estavam apaixonados. Comparando as respostas dos cérebros aos estímulos, viram o que havia de “a mais” na paixão e concluíram que o amor era uma certa neuroatividade em determinada parte do cérebro. Só que estar apaixonado é muito mais do que responder a um estímulo físico. É algo incrivelmente complicado e o que a neurociência nos oferece sobre isso é apenas algumas sequências de áreas ativadas no cérebro ao se dar um estímulo.
Cresce o risco de determinismo biológico?
Sou ateu e humanista, mas há um trabalho espiritual e intelectual interessante que tem de ser feito para entendermos com profundidade o que somos. É um grande erro achar que, se não viemos de uma força sobrenatural como Deus, somos meramente parte da natureza, como animais. Há o risco de, quando as pessoas começam a falar de neuropolítica, pensarem em neurodireito para substituir procedimentos na corte com justiça biológica baseada em scannerscerebrais. Acho aí que entraríamos em sério perigo.
O dawinismo social está de volta?
É parte da minha preocupação essa maneira muito científica de ver a humanidade. A redução do ser humano a ondas cerebrais me lembra muito da convergência entre o pensamento pavloviano e do socialismo materialista no começo do século 20. A ideia de que nós precisaríamos de engenheiros de seres humanos, de que a ciência iria nos mostrar do que realmente somos feitos e que as nossas políticas seriam baseadas em ciência física real, etc. Esse tipo de cientificismo tem uma história muito triste no passado.
Você também critica o que chama de darwinites. O que é isso?
É a crença de que Darwin não apenas explica como o organismo do homo sapiens se transformou no que é hoje — o que certamente ele faz—, mas que explica também como somos e agimos atualmente. Há muitas pessoas que acham que, por causa de Darwin, temos que negar um abismo imenso que existe entre nós e outros animais. Isso está ligado à neuromania. Se você acredita que a mente é idêntica às ondas cerebrais e acredita que o cérebro é um órgão que evoluiu, então, certamente, acreditará que o nosso modo de pensar é apenas moldado pelo evolucionismo. Nossas ações e a forma como agimos, tudo seria a respeito de simplesmente maximizar a passagem de nosso código genético e nada mais. Isso coloca em risco a própria noção de livre arbítrio.
O que você sugere?
Olha, meu livro é bastante negativo. Parafraseando John Locke, meu trabalho é limpar a sujeira do caminho que leva até a verdade. Apesar disso, eu tento apontar no sentido de dizer que nós temos que fazer uma certa reavaliação radical do nosso pensamento, no sentido de pensar sobre o lugar da humanidade e da consciência humana na natureza. E temos de começar nos fazendo questões fundamentais sobre a relação com o material de que somos feitos. Há algo de interessante ocorrendo entre alguns filósofos que tentam escapar da noção de que a mente é a atividade do cérebro. E que o cérebro, como um órgão evoluído, é simplesmente o servente de um processo de evolução. Há algo de bom começando em termos filosóficos nessa área, mas está num estágio muito inicial e precisamos de um gênio para vir e pensar mais profundamente sobre onde nós estamos nessa discussão neste momento. E eu não sou este gêni
o.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

HUMOR SOBRE A ANÁLISE

COMÉDIA: 220 VOLTS – ANÁLISE

S_o_Paulo_094 O talentoso Paulo Gustavo satiriza o processo terapeutico e seus clientes. Seria trágico se não fosse cômico, vermos tantas semelhanças apontadas especialmente com os pacientes histriônicos, narcísicos, paranóicos, ninfomaníacos e tantos outros tipos.
Deixo claro que a análise é muito mais do que pode parecer e obviamente a sátira é uma crítica bem feita ao fator humano das insanidades de cada personalidade.http://cdpsi.com.br/blog/index.php/2013/08/comedia-220-volts-analise/

terça-feira, 27 de agosto de 2013

PENSAMENTO E LINGUAGEM: O Enigma de Kaspar Hauser

Para meus alunos de Pensamento de Linguagem: o filme O Enigma de Kaspar Hauser esta publicado no Blog nos dias 19 e 20/07/12.

PARA MEUS ALUNOS DE PENSAMENTO E LINGUAGEM: CRIMES DA PALAVRA

http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/crimes_da_palavra.html

Crimes da palavra

A voz coletiva julga e antecipa castigos, sem individualizar responsabilidades; no filme A caça o problema está no que os adultos fazem com o que é dito por uma criança

junho de 2013
Christian Ingo Lenz Dunker
Gonçalo Viana
“Existe muita maldade no mundo, mas se nós ficamos juntos ela diminui.” Com essa frase o pai de uma menina de 5 anos tenta consolar a filha. Ela tinha dito à supervisora da creche onde estuda que seu professor havia lhe mostrado “sua vara em pé”. O pai é amigo de infância do acusado, que vive solitário em sua casa, enquanto luta para ter a guarda do filho após uma separação turbulenta. A pequena vila na Suécia, onde se passa o filme A caça, de Thomas Vinterberg (2012), reage violentamente à denúncia da menina oprimindo, atacando e vilipendiando o jovem professor. Na dúvida, é melhor fazer alguma coisa – e o que há para fazer é vingar-se. A violência contra o mal é também uma forma de “ficar junto” e de magicamente “diminuir” a maldade. É assim que a comunhão integrativa que nos une contra um inimigo, interno ou externo, promove a catarse como purificação.

As crianças dizem a verdade, afirma a escola, sem se perguntar onde e como exatamente o fazem. O filme mostra quão perniciosa pode ser a verdade quando a reduzimos ao fervor judicialista que se apossa de nós diante do pressentimento de injustiça. “Existe muita maldade no mundo, mas às vezes , se nós ficamos juntos ela aumenta... mais ainda.” E se a vingança pode reparar imaginariamente o dano, ainda não sabemos como curar os prejuízos de uma falsa denúncia pública. O filósofo Giorgio Agamben apresentou, em 1995, a figura do homo sacer para falar daqueles que podem ser mortos impunemente, seja em campos de concentração ou na cracolândia. Ainda não descobrimos uma figura equivalente para falar dos crimes impunes da palavra, mais aquém da difamação, da calúnia e da injúria. Como seria possível tipificar um crime que se baseia em incerteza de intenções, indeterminação da autoria e na inconsequência dos efeitos? A voz coletiva julga, segrega, antecipa castigos pressupondo a culpa, sem individualizar responsabilidades. No filme de Vintenberg o crime não está na palavra da criança, mas no que o adulto faz com ela: usa-a para propagar o seu próprio mal, impronunciável até então.

Há hipóteses que não alteram quem as enuncia nem a situação na qual ela é formulada. Mas há outras teses carregadas de um estranho e incontrolável efeito transformador. Entre dois amantes um deles pergunta: “E se você estiver me traindo?”. Falsa ou verdadeira, a mera enunciação da possibilidade muda completamente a natureza do laço entre os envolvidos. “Você está usando drogas?”, questionam os pais do adolescente. “De quem você gosta mais, do papai ou da mamãe?” (Essa pergunta, aliás, jamais deveria ser feita a qualquer criança.)

Há uma correlação entre a emergência de uma cultura da celebridade e a expansão dos crimes da palavra. A construção “social” de avaliações, juízos e demais impressões derrogatórias é uma arte ascendente no mundo corporativo. Paul Valéry (1871-1945) falava das profissões delirantes como aquelas atividades cujo sucesso depende quase exclusivamente da opinião que os outros têm sobre você, por exemplo, o artista. Ocorre que numa cultura da denúncia quase todas as profissões tornaram-se delirantes.

A incerteza promovida por uma denúncia é real – tão real quanto a devastação que ela causa na vítima da lógica vitimista. É como se diante da impotência gerada por uma dúvida nos ocupássemos antes em “ficar juntos” do que admitir a indeterminação real que atravessa nossas vidas. É preciso considerar outra forma de catarse, aquela na qual a dignidade de um caso pode derrotar a massa que imagina criar bondade só porque está unida, uma catarse que não seria purificadora e excludente do mal, mas desintegrativa em relação à própria “bondade” do grupo na qual emerge. Uma catarse que seria a cura para os crimes da palavra.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

DOCUMENTÁRIO SOBRE LACAN


Um encontro com Lacan (Documentário Rendez Vous Chez Lacan, de 2011, dirigido por Gérard Miller)

 

http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=pn8x8uQbRRQ

terça-feira, 20 de agosto de 2013

ATIVIDADES DO PROJETO FREUDIANO

Atividades do semestre 2013/2 do Projeto Freudiano.
Curtam a pagina do Projeto Freudiano no Facebook.

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOPEDAGOGIA


Curso de Especialização em Psicopedagogia da UNIT que fui convida para ministrar uma disciplina:
 
 
Objetivos:
Preparar profissionais capazes de atuar, de forma ética e competente, no campo da Psicopedagogia Institucional e Clínica, atuando no diagnóstico e na intervenção preventiva e/ou terapêutica na área das dificuldades de aprendizagem, assim como desenvolver habilidades de leitura de sintomas relacionados ao processo de ensino-aprendizagem e promover a reflexão sobre a interdependência entre o ser humano e o ambiente em que ele vive.
 Público-alvo:
Profissionais graduados na área de Pedagogia, Educação e Saúde, Psicologia, Fonoaudiologia e demais profissionais envolvidos no processo de ensino-aprendizagem.

Vejam o link:
http://ww3.unit.br/pos2014/cursos/especializacao-em-psicopedagogia/

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Discussão sobre a eficácia da Psicanálise.

A psicanálise é uma ciência?

Apesar de estudos confirmarem a eficácia do tratamento, ainda vemos centros de atenção psicossocial (CAPS)
demitindo em massa clínicos de orientação psicanalítica

 http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/a_psicanalise_e_uma_ciencia_.html


Christian Ingo Lenz Dunker




Em 1784 o rei Luiz XVI nomeou uma comissão da Academia Francesa de Ciências para investigar fenômenos de cura promovidos em nome do “magnetismo animal”, certa forma de energia semelhante à eletricidade, presente nos corpos animados, cujo desequilíbrio causaria doenças. Benjamin Franklin, Antoine Lavoisier e Joseph-Ignace Guillotin, tendo à frente o biólogo Antoine Jussieu, concluíram que as curas não podiam ser atribuídas aos procedimentos dos discípulos do médico e magnetizador Franz Mesmer e que os conceitos mobilizados para explicá-las eram inaceitáveis. Apesar disso algo acontecia. E mesmo que isso fosse atribuído à sugestão ou ao hipnotismo ainda assim era obrigação da ciência explicar como funciona este poder de transformar um fato da natureza por meio de palavras.

Neste tempo mudou o que chamamos de ciência e mudou o que chamamos de psicanálise. A maior parte das novas objeções centra-se em estudos sobre os casos clínicos originais mostrando seus defeitos e insuficiências. Como se tomássemos a medicina do século 19 para ridicularizar seus equívocos aos olhos de nossos critérios atuais. Até a década de 50 a psiquiatria amarrava pessoas com autismo em cadeiras, mas isso não a torna menos científica hoje.

Vem ganhando força a ideia de que a psicanálise não é apenas uma ciência, mas possivelmente várias. Assim como não podemos confundir a medicina com as ciências nas quais esta se apoia (anatomia, físico-química, genética, fisiologia), não é preciso imaginar que os fundamentos da psicanálise repousam em um único reduto, tal como a hipótese do inconsciente ou a teoria da libido. Talvez o tipo de cientificidade da psicanálise seja parecido com o da teoria da evolução, não por sua afinidade com o naturalismo, mas porque ambas tentam explicar uma gama muito grande de fenômenos, requerendo um conjunto variado de hipóteses e, portanto, uma teoria da prova diversificada. E sua teoria da prova remonta à combinação entre evidências causais que se cruzam na prática do método de tratamento, mesmo que oriundas de disciplinas diversas.

Então por que uma prática amplamente instalada nos dispositivos de produção de ciência, das universidades aos hospitais e centros de pesquisa, em quase todos os países do mundo, prestando contas em revistas, congressos e publicações, recebendo financiamento público e privado para isso, é tão frequentemente questionada? Por que, apesar de estudos independentes, promovidos por não psicanalistas, confirmarem a eficácia do tratamento psicanalítico, ainda assim vemos tradicionais Centros de Atenção Psicossocial (Caps) demitindo em massa clínicos de orientação psicanalítica?

Não é pela ineficiência ou pela cientificidade, que são usadas aqui apenas como abuso e exploração do perpétuo julgamento moral da “coisa psíquica”, mas porque como empreendimento a psicanálise é um péssimo negócio: não entra nos planos de saúde, não permite que se explore e se empreite o trabalho dos outros, não produz nenhum objeto, nem oferece um serviço padrão a ser multiplicado, indefinidamente, de modo impessoal. No fundo continuamos artesanais, no fazer e no formar, na ambição de justificativa pelas regras do jogo científico e na defesa do método clínico. Mesmo que os novos “Guillotins” queiram pensar de outra maneira.