terça-feira, 27 de agosto de 2013

PENSAMENTO E LINGUAGEM: O Enigma de Kaspar Hauser

Para meus alunos de Pensamento de Linguagem: o filme O Enigma de Kaspar Hauser esta publicado no Blog nos dias 19 e 20/07/12.

PARA MEUS ALUNOS DE PENSAMENTO E LINGUAGEM: CRIMES DA PALAVRA

http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/crimes_da_palavra.html

Crimes da palavra

A voz coletiva julga e antecipa castigos, sem individualizar responsabilidades; no filme A caça o problema está no que os adultos fazem com o que é dito por uma criança

junho de 2013
Christian Ingo Lenz Dunker
Gonçalo Viana
“Existe muita maldade no mundo, mas se nós ficamos juntos ela diminui.” Com essa frase o pai de uma menina de 5 anos tenta consolar a filha. Ela tinha dito à supervisora da creche onde estuda que seu professor havia lhe mostrado “sua vara em pé”. O pai é amigo de infância do acusado, que vive solitário em sua casa, enquanto luta para ter a guarda do filho após uma separação turbulenta. A pequena vila na Suécia, onde se passa o filme A caça, de Thomas Vinterberg (2012), reage violentamente à denúncia da menina oprimindo, atacando e vilipendiando o jovem professor. Na dúvida, é melhor fazer alguma coisa – e o que há para fazer é vingar-se. A violência contra o mal é também uma forma de “ficar junto” e de magicamente “diminuir” a maldade. É assim que a comunhão integrativa que nos une contra um inimigo, interno ou externo, promove a catarse como purificação.

As crianças dizem a verdade, afirma a escola, sem se perguntar onde e como exatamente o fazem. O filme mostra quão perniciosa pode ser a verdade quando a reduzimos ao fervor judicialista que se apossa de nós diante do pressentimento de injustiça. “Existe muita maldade no mundo, mas às vezes , se nós ficamos juntos ela aumenta... mais ainda.” E se a vingança pode reparar imaginariamente o dano, ainda não sabemos como curar os prejuízos de uma falsa denúncia pública. O filósofo Giorgio Agamben apresentou, em 1995, a figura do homo sacer para falar daqueles que podem ser mortos impunemente, seja em campos de concentração ou na cracolândia. Ainda não descobrimos uma figura equivalente para falar dos crimes impunes da palavra, mais aquém da difamação, da calúnia e da injúria. Como seria possível tipificar um crime que se baseia em incerteza de intenções, indeterminação da autoria e na inconsequência dos efeitos? A voz coletiva julga, segrega, antecipa castigos pressupondo a culpa, sem individualizar responsabilidades. No filme de Vintenberg o crime não está na palavra da criança, mas no que o adulto faz com ela: usa-a para propagar o seu próprio mal, impronunciável até então.

Há hipóteses que não alteram quem as enuncia nem a situação na qual ela é formulada. Mas há outras teses carregadas de um estranho e incontrolável efeito transformador. Entre dois amantes um deles pergunta: “E se você estiver me traindo?”. Falsa ou verdadeira, a mera enunciação da possibilidade muda completamente a natureza do laço entre os envolvidos. “Você está usando drogas?”, questionam os pais do adolescente. “De quem você gosta mais, do papai ou da mamãe?” (Essa pergunta, aliás, jamais deveria ser feita a qualquer criança.)

Há uma correlação entre a emergência de uma cultura da celebridade e a expansão dos crimes da palavra. A construção “social” de avaliações, juízos e demais impressões derrogatórias é uma arte ascendente no mundo corporativo. Paul Valéry (1871-1945) falava das profissões delirantes como aquelas atividades cujo sucesso depende quase exclusivamente da opinião que os outros têm sobre você, por exemplo, o artista. Ocorre que numa cultura da denúncia quase todas as profissões tornaram-se delirantes.

A incerteza promovida por uma denúncia é real – tão real quanto a devastação que ela causa na vítima da lógica vitimista. É como se diante da impotência gerada por uma dúvida nos ocupássemos antes em “ficar juntos” do que admitir a indeterminação real que atravessa nossas vidas. É preciso considerar outra forma de catarse, aquela na qual a dignidade de um caso pode derrotar a massa que imagina criar bondade só porque está unida, uma catarse que não seria purificadora e excludente do mal, mas desintegrativa em relação à própria “bondade” do grupo na qual emerge. Uma catarse que seria a cura para os crimes da palavra.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

DOCUMENTÁRIO SOBRE LACAN


Um encontro com Lacan (Documentário Rendez Vous Chez Lacan, de 2011, dirigido por Gérard Miller)

 

http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=pn8x8uQbRRQ

terça-feira, 20 de agosto de 2013

ATIVIDADES DO PROJETO FREUDIANO

Atividades do semestre 2013/2 do Projeto Freudiano.
Curtam a pagina do Projeto Freudiano no Facebook.

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOPEDAGOGIA


Curso de Especialização em Psicopedagogia da UNIT que fui convida para ministrar uma disciplina:
 
 
Objetivos:
Preparar profissionais capazes de atuar, de forma ética e competente, no campo da Psicopedagogia Institucional e Clínica, atuando no diagnóstico e na intervenção preventiva e/ou terapêutica na área das dificuldades de aprendizagem, assim como desenvolver habilidades de leitura de sintomas relacionados ao processo de ensino-aprendizagem e promover a reflexão sobre a interdependência entre o ser humano e o ambiente em que ele vive.
 Público-alvo:
Profissionais graduados na área de Pedagogia, Educação e Saúde, Psicologia, Fonoaudiologia e demais profissionais envolvidos no processo de ensino-aprendizagem.

Vejam o link:
http://ww3.unit.br/pos2014/cursos/especializacao-em-psicopedagogia/

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Discussão sobre a eficácia da Psicanálise.

A psicanálise é uma ciência?

Apesar de estudos confirmarem a eficácia do tratamento, ainda vemos centros de atenção psicossocial (CAPS)
demitindo em massa clínicos de orientação psicanalítica

 http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/a_psicanalise_e_uma_ciencia_.html


Christian Ingo Lenz Dunker




Em 1784 o rei Luiz XVI nomeou uma comissão da Academia Francesa de Ciências para investigar fenômenos de cura promovidos em nome do “magnetismo animal”, certa forma de energia semelhante à eletricidade, presente nos corpos animados, cujo desequilíbrio causaria doenças. Benjamin Franklin, Antoine Lavoisier e Joseph-Ignace Guillotin, tendo à frente o biólogo Antoine Jussieu, concluíram que as curas não podiam ser atribuídas aos procedimentos dos discípulos do médico e magnetizador Franz Mesmer e que os conceitos mobilizados para explicá-las eram inaceitáveis. Apesar disso algo acontecia. E mesmo que isso fosse atribuído à sugestão ou ao hipnotismo ainda assim era obrigação da ciência explicar como funciona este poder de transformar um fato da natureza por meio de palavras.

Neste tempo mudou o que chamamos de ciência e mudou o que chamamos de psicanálise. A maior parte das novas objeções centra-se em estudos sobre os casos clínicos originais mostrando seus defeitos e insuficiências. Como se tomássemos a medicina do século 19 para ridicularizar seus equívocos aos olhos de nossos critérios atuais. Até a década de 50 a psiquiatria amarrava pessoas com autismo em cadeiras, mas isso não a torna menos científica hoje.

Vem ganhando força a ideia de que a psicanálise não é apenas uma ciência, mas possivelmente várias. Assim como não podemos confundir a medicina com as ciências nas quais esta se apoia (anatomia, físico-química, genética, fisiologia), não é preciso imaginar que os fundamentos da psicanálise repousam em um único reduto, tal como a hipótese do inconsciente ou a teoria da libido. Talvez o tipo de cientificidade da psicanálise seja parecido com o da teoria da evolução, não por sua afinidade com o naturalismo, mas porque ambas tentam explicar uma gama muito grande de fenômenos, requerendo um conjunto variado de hipóteses e, portanto, uma teoria da prova diversificada. E sua teoria da prova remonta à combinação entre evidências causais que se cruzam na prática do método de tratamento, mesmo que oriundas de disciplinas diversas.

Então por que uma prática amplamente instalada nos dispositivos de produção de ciência, das universidades aos hospitais e centros de pesquisa, em quase todos os países do mundo, prestando contas em revistas, congressos e publicações, recebendo financiamento público e privado para isso, é tão frequentemente questionada? Por que, apesar de estudos independentes, promovidos por não psicanalistas, confirmarem a eficácia do tratamento psicanalítico, ainda assim vemos tradicionais Centros de Atenção Psicossocial (Caps) demitindo em massa clínicos de orientação psicanalítica?

Não é pela ineficiência ou pela cientificidade, que são usadas aqui apenas como abuso e exploração do perpétuo julgamento moral da “coisa psíquica”, mas porque como empreendimento a psicanálise é um péssimo negócio: não entra nos planos de saúde, não permite que se explore e se empreite o trabalho dos outros, não produz nenhum objeto, nem oferece um serviço padrão a ser multiplicado, indefinidamente, de modo impessoal. No fundo continuamos artesanais, no fazer e no formar, na ambição de justificativa pelas regras do jogo científico e na defesa do método clínico. Mesmo que os novos “Guillotins” queiram pensar de outra maneira.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

"Patologização da vida - DSM-5 - Acordei doente mental

Acordei doente mental

A quinta edição da “Bíblia da Psiquiatria”, o DSM-5, transformou numa “anormalidade” ser “normal”

ELIANE BRUM
Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua  -  (Foto: Lilo Clareto/Divulgação)
A poderosa American Psychiatric Association (Associação Americana de Psiquiatria – APA) lançou neste final de semana a nova edição do que é conhecido como a “Bíblia da Psiquiatria”: o DSM-5. E, de imediato, virei doente mental. Não estou sozinha. Está cada vez mais difícil não se encaixar em uma ou várias doenças do manual. Se uma pesquisa já mostrou que quase metade dos adultos americanos tiveram pelo menos um transtorno psiquiátrico durante a vida, alguns críticos renomados desta quinta edição do manual têm afirmado que agora o número de pessoas com doenças mentais vai se multiplicar. E assim poderemos chegar a um impasse muito, mas muito fascinante, mas também muito perigoso: a psiquiatria conseguiria a façanha de transformar a “normalidade” em “anormalidade”. O “normal” seria ser “anormal”.
A nova edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) exibe mais de 300 patologias, distribuídas por 947 páginas. Custa US$ 133,08 (com desconto) no anúncio de pré-venda no site da Amazon. Descobri que sou doente mental ao conhecer apenas algumas das novas modalidades, que tem sido apresentadas pela imprensa internacional. Tenho quase todas. “Distúrbio de Hoarding”. Tenho. Caracteriza-se pela dificuldade persistente de se desfazer de objetos ou de “lixo”, independentemente de seu valor real. Sou assolada por uma enorme dificuldade de botar coisas fora, de bloquinhos de entrevistas dos anos 90 a sapatos imprestáveis para o uso, o que resulta em acúmulos de caixas pelo apartamento. Remédio pra mim. “Transtorno Disfórico Pré-Menstrual”, que consiste numa TPM mais severa. Culpada. Qualquer um que convive comigo está agora autorizado a me chamar de louca nas duas semanas anteriores à menstruação. Remédio pra mim. “Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica”. A pessoa devora quantidades “excessivas” de comida num período delimitado de até duas horas, pelo menos uma vez por semana, durante três meses ou mais. Certeza que tenho. Bastaria me ver comendo feijão, quando chego a cinco ou seis pratos fundo fácil. Mas, para não ter dúvida, devoro de uma a duas latas de leite condensado por semana, em menos de duas horas, há décadas, enquanto leio um livro igualmente delicioso, num ritual que eu chamava de “momento de felicidade absoluta”, mas que, de fato, agora eu sei, é uma doença mental. Em vez de leite condensado, remédio pra mim. Identifiquei outras anomalias, mas fiquemos neste parágrafo gigante, para que os transtornos psiquiátricos que me afetam não ocupem o texto inteiro.
Há uma novidade mais interessante do que as doenças recém inventadas pela nova “Bíblia”. Seu lançamento vem marcado por uma controvérsia sem precedentes. Se sempre houve uma crítica contundente às edições anteriores, especialmente por parte de psicólogos e psicanalistas, a quinta edição tem sido atacada com mais ferocidade justamente por quem costumava não só defender o manual, como participar de sua elaboração. Alguns nomes reluzentes da psiquiatria americana estão, digamos, saltando do navio. Como não há cordeiros nesse campo, movido em parte pelos bilhões de dólares da indústria farmacêutica, é legítimo perguntar: perceberam que há abusos e estão fazendo uma “mea culpa” sincera antes que seja tarde, ou estão vendo que o navio está adernando e querem salvar o seu nome, ou trata-se de uma disputa interna de poder em que os participantes das edições anteriores foram derrotados por outro grupo, ou tudo isso junto e mais alguma coisa?
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Não conheço os labirintos da APA para alcançar a resposta, mas acredito que vale a pena ficarmos atentos aos próximos capítulos. Por um motivo acima de qualquer suspeita: o DSM influencia não só a saúde mental nos Estados Unidos, mas é o manual utilizado pelos médicos em praticamente todos os países, pelo menos os ocidentais, incluindo o Brasil. É também usado como referência no sistema de classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS). É, portanto, o que define o que é ser “anormal” em nossa época – e este é um enorme poder. Vale a pena sublinhar com tinta bem forte que, para cada nova patologia, abre-se um novo mercado para a indústria farmacêutica. Esta, sim, nunca foi tão feliz – e saudável.
O crítico mais barulhento do DSM-5 parece ser o psiquiatra Allen Frances, que, vejam só, foi o coordenador da quarta edição do manual, lançada em 1994. Professor emérito da Universidade de Duke, ele tem um blog no Huffington Post que praticamente usa apenas para detonar a nova Bíblia da Psiquiatria. Quando a versão final do manual foi aprovada, enumerou o que considera as dez piores mudanças da quinta edição, num texto iniciado com a seguinte frase: “Esse é o momento mais triste nos meus 45 anos de carreira de estudo, prática e ensino da psiquiatria”. Em carta ao The New York Times, afirmou: “As fronteiras da psiquiatria continuam a se expandir, a esfera do normal está encolhendo”.
Entre suas críticas mais contundentes está o fato de o DSM-5 ter transformado o que chamou de “birra infantil” em doença mental. A nova patologia é chamada de “Transtorno Disruptivo de Desregulação do Humor” e atingiria crianças e adolescentes que apresentassem episódios frequentes de irritabilidade e descontrole emocional. No que se refere à patologização da infância, o comentário mais incisivo de Allen Frances talvez seja este: “Nós não temos ideia de como esses novos diagnósticos não testados irão influenciar no dia a dia da prática médica, mas meu medo é que isso irá exacerbar e não amenizar o já excessivo e inapropriado uso de medicação em crianças. Durante as duas últimas décadas, a psiquiatria infantil já provocou três modismos — triplicou o Transtorno de Déficit de Atenção, aumentou em mais de 20 vezes o autismo e aumentou em 40 vezes o transtorno bipolar na infância. Esse campo deveria sentir-se constrangido por esse currículo lamentável e deveria engajar-se agora na tarefa crucial de educar os profissionais e o público sobre a dificuldade de diagnosticar as crianças com precisão e sobre os riscos de medicá-las em excesso. O DSM-5 não deveria adicionar um novo transtorno com o potencial de resultar em um novo modismo e no uso ainda mais inapropriado de medicamentos em crianças vulneráveis".
A epidemia de doenças como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) tem mobilizado gestores de saúde pública, assustados com o excesso de diagnósticos e a suspeita de uso abusivo de drogas como Ritalina, inclusive no Brasil. E motivado algumas retratações por parte de psiquiatras que fizeram seu nome difundindo a doença. Uma reportagem do The New York Times sobre o tema conta que o psiquiatra Ned Hallowell, autor de best-sellers sobre TDAH, hoje arrepende-se de dizer aos pais que medicamentos como Adderall e outros eram “mais seguros que Aspirina”. Hallowell, agora mais comedido, afirma: “Arrependo-me da analogia e não direi isso novamente”. E acrescenta: “Agora é o momento de chamar a atenção para os perigos que podem estar associados a diagnósticos displicentes. Nós temos crianças lá fora usando essas drogas como anabolizantes mentais – isso é perigoso e eu odeio pensar que desempenhei um papel na criação desse problema”. No DSM-5, a idade limite para o aparecimento dos primeiros sintomas de TDAH foi esticada dos 7 anos, determinados na versão anterior, para 12 anos, aumentando o temor de uma “hiperinflação de diagnósticos”.
Pensar sobre a controvérsia gerada pelo nova “Bíblia da Psiquiatria” é pensar sobre algumas construções constitutivas do período histórico que vivemos. Construções culturais que dizem quem somos nós, os homens e mulheres dessa época. A começar pelo fato de darmos a um grupo de psiquiatras o poder – incomensurável – de definir o que é ser “normal”. E assim interferir direta e indiretamente na vida de todos, assim como nas políticas governamentais de saúde pública, com consequências e implicações que ainda precisam ser muito melhor analisadas e compreendidas. Sem esquecer, em nenhum momento sequer, que a definição das doenças mentais está intrinsicamente ligada a uma das indústrias mais lucrativas do mundo atual.
Parte dos organizadores não gosta que o manual seja chamado de “Bíblia”. Mas, de fato, é o que ele tem sido, na medida em que uma parcela significativa dos psiquiatras do mundo ocidental trata os verbetes como dogmas, alterando a vida de milhões de pessoas a partir do que não deixa de ser um tipo de crença. Talvez seja em parte por isso que o diretor do National Institute of Mental Health (Instituto Nacional de Saúde Mental – NIMH), possivelmente a maior organização de pesquisa em saúde mental do mundo, tenha anunciado o distanciamento da instituição das categorias do DSM-5. Thomas Insel escreveu em seu blog que o DSM não é uma Bíblia, mas no máximo um “dicionário”: “A fraqueza (do DSM) é sua falta de fundamentação. Seus diagnósticos são baseados no consenso sobre grupos de sintomas clínicos, não em qualquer avaliação objetiva em laboratório. (...) Os pacientes com doenças mentais merecem algo melhor”. O NIMH iniciou um projeto para a criação de um novo sistema de classificação, incorporando investigação genética, imagens, ciência cognitiva e “outros níveis de informação” – o que também deve gerar controvérsias.
A polêmica em torno do DSM-5 é uma boa notícia. E torço para que seja apenas o início de um debate sério e profundo, que vá muito além da medicina, da psicologia e da ciência. “Há pelo menos 20 anos tem se tratado como doença mental quase todo tipo de comportamento ou sentimento humano”, disse a psicóloga Paula Caplan à BBC Brasil. Ela afirma ter participado por dois anos da elaboração da edição anterior do manual, antes de abandoná-la por razões “éticas e profissionais”, assim como por ter testemunhado “distorções em pesquisas”. Escreveu um livro com o seguinte título: “Eles dizem que você é louco: como os psiquiatras mais poderosos do mundo decidem quem é normal”.
A vida tornou-se uma patologia. E tudo o que é da vida parece ter virado sintoma de uma doença mental. Talvez o exemplo mais emblemático da quinta edição do manual seja a forma de olhar para o luto. Agora, quem perder alguém que ama pode receber um diagnóstico de depressão. Se a tristeza e outros sentimentos persistirem por mais de duas semanas, há chances de que um médico passe a tratá-los como sintomas e faça do luto um transtorno mental. Em vez de elaborar a perda – com espaço para vivê-la e para, no tempo de cada um, dar um lugar para essa falta que permita seguir vivendo –, a pessoa terá sua dor silenciada com drogas. É preciso se espantar – e se espantar muito.
Vale a pena olhar pelo avesso: quem são essas pessoas que acham que o “normal” é superar a perda de uma mãe, de um pai, de um filho, de um companheiro rapidamente? Que tipo de ser humano consegue essa proeza? Quem seríamos nós se precisássemos de apenas duas semanas para elaborar a dor por algo dessa magnitude? Talvez o DSM-5 diga mais dos psiquiatras que o organizaram do que dos pacientes.
Há ainda mais uma consequência cruel, que pode provocar muito sofrimento. Ao transformar o que é da vida em doença mental, os defensores dessa abordagem estão desamparando as pessoas que realmente precisam da sua ajuda. Aquelas que efetivamente podem ser beneficiadas por tratamento e por medicamentos. Se quase tudo é patologia, torna-se cada vez mais difícil saber o que é, de fato, patologia. Por sorte, há psiquiatras éticos e competentes que agem com consciência em seus consultórios. Mas sempre foi difícil em qualquer área distinguir-se da manada – e mais ainda nesta área, que envolve o assédio sedutor, lucrativo e persistente dos laboratórios.
Se as consequências não fossem tão nefastas, seria até interessante. Ao considerar que quase tudo é “anormal”, os organizadores do manual poderiam estar chegando a uma concepção filosófica bem libertadora. A de que, como diria Caetano Veloso, “de perto ninguém é normal”. E não é mesmo, o que não significa que seja doente mental por isso e tenha de se tornar um viciado em drogas legais para ser aceito. Só se pode compreender as escolhas de alguém a partir do sentido que as pessoas dão às suas escolhas. E não há dois sentidos iguais para a mesma escolha, na medida em que não existem duas pessoas iguais. A beleza do humano é que aquilo que nos une é justamente a diferença. Somos iguais porque somos diferentes.
Esse debate não pertence apenas à medicina, à psicologia e à ciência, ou mesmo à economia e à política. É preciso quebrar os monopólios sobre essa discussão, para que se torne um debate no âmbito abrangente da cultura. É de compreender quem somos e como chegamos até aqui que se trata. E também de quem queremos ser. A definição do que é “normal” e “anormal” – ou a definição de que é preciso ter uma definição – é uma construção cultural. E nos envolve a todos. Que cada vez mais as definições sobre normalidade/anormalidade sejam monopólios da psiquiatria e uma fonte bilionária de lucros para a indústria farmacêutica é um dado dos mais relevantes – mas está longe de ser tudo.
E não, eu não acordei doente mental. Só teria acordado se permitisse a uma Bíblia – e a pastores de jaleco – determinar os sentidos que construo para a minha vida.

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/05/acordei-doente-mental.html

Artigo muito bom para pensar sobre a existência (ou não) do Déficit de Atenção



Postado em: 20 mai 2013 às 19:28

Como é que a epidemia do Déficit de Atenção, que tornou-se firmemente estabelecida em vários países do mundo, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças na França?

Nos Estados Unidos, pelo menos 9% das crianças em idade escolar foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e estão sendo tratadas com medicamentos. Na França, a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%. Como é que a epidemia de TDAH, que tornou-se firmemente estabelecida nos Estados Unidos, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças na França?

Déficit de Atenção em crianças francesas é inferior a 0,5% (Foto: Ilustração)
TDAH é um transtorno biológico-neurológico? Surpreendentemente, a resposta a esta pergunta depende do fato de você morar na França ou nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os psiquiatras pediátricos consideram o TDAH como um distúrbio biológico, com causas biológicas. O tratamento de escolha também é biológico – medicamentos estimulantes psíquicos, tais como Ritalina e Adderall.
Os psiquiatras infantis franceses, por outro lado, vêem o TDAH como uma condição médica que tem causas psico-sociais e situacionais. Em vez de tratar os problemas de concentração e de comportamento com drogas, os médicos franceses preferem avaliar o problema subjacente que está causando o sofrimento da criança; não o cérebro da criança, mas o contexto social da criança. Eles, então, optam por tratar o problema do contexto social subjacente com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Esta é uma maneira muito diferente de ver as coisas, comparada à tendência americana de atribuir todos os sintomas de uma disfunção biológica a um desequilíbrio químico no cérebro da criança.


Os psiquiatras infantis franceses não usam o mesmo sistema de classificação de problemas emocionais infantis utilizado pelos psiquiatras americanos. Eles não usam o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM. De acordo com o sociólogo Manuel Vallee, a Federação Francesa de Psiquiatria desenvolveu um sistema de classificação alternativa, como uma resistência à influência do DSM-3. Esta alternativa foi a CFTMEA (Classification Française des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent), lançado pela primeira vez em 1983, e atualizado em 1988 e 2000. O foco do CFTMEA está em identificar e tratar as causas psicossociais subjacentes aos sintomas das crianças, e não em encontrar os melhores bandaids farmacológicos para mascarar os sintomas.
Na medida em que os médicos franceses são bem sucedidos em encontrar e reparar o que estava errado no contexto social da criança, menos crianças se enquadram no diagnóstico de TDAH. Além disso, a definição de TDAH não é tão ampla quanto no sistema americano, que na minha opinião, tende a “patologizar” muito do que seria um comportamento normal da infância. O DSM não considera causas subjacentes. Dessa forma, leva os médicos a diagnosticarem como TDAH um número muito maior de crianças sintomáticas, e também os incentiva a tratar as crianças com produtos farmacêuticos.
A abordagem psico-social holística francesa também permite considerar causas nutricionais para sintomas do TDAH, especificamente o fato de o comportamento de algumas crianças se agravar após a ingestão de alimentos com corantes, certos conservantes, e / ou alérgenos. Os médicos que trabalham com crianças com problemas, para não mencionar os pais de muitas crianças com TDAH, estão bem conscientes de que as intervenções dietéticas às vezes podem ajudar. Nos Estados Unidos, o foco estrito no tratamento farmacológico do TDAH, no entanto, incentiva os médicos a ignorarem a influência dos fatores dietéticos sobre o comportamento das crianças.
E depois, claro, há muitas diferentes filosofias de educação infantil nos Estados Unidos e na França. Estas filosofias divergentes poderiam explicar por que as crianças francesas são geralmente mais bem comportadas do que as americanas. Pamela Druckerman destaca os estilos parentais divergentes em seu recente livro, Bringing up Bébé. Acredito que suas idéias são relevantes para a discussão, por que o número de crianças francesas diagnosticadas com TDAH, em nada parecem com os números que estamos vendo nos Estados Unidos.
A partir do momento que seus filhos nascem, os pais franceses oferecem um firme cadre – que significa “matriz” ou “estrutura”. Não é permitido, por exemplo, que as crianças tomem um lanche quando quiserem. As refeições são em quatro momentos específicos do dia. Crianças francesas aprendem a esperar pacientemente pelas refeições, em vez de comer salgadinhos, sempre que lhes apetecer. Os bebês franceses também se adequam aos limites estabelecidos pelos pais. Pais franceses deixam seus bebês chorando se não dormirem durante a noite, com a idade de quatro meses.
Os pais franceses, destaca Druckerman, amam seus filhos tanto quanto os pais americanos. Eles os levam às aulas de piano, à prática esportiva, e os incentivam a tirar o máximo de seus talentos. Mas os pais franceses têm uma filosofia diferente de disciplina. Limites aplicados de forma coerente, na visão francesa, fazem as crianças se sentirem seguras e protegidas. Limites claros, eles acreditam, fazem a criança se sentir mais feliz e mais segura, algo que é congruente com a minha própria experiência, como terapeuta e como mãe. Finalmente, os pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”. E a palmada, quando usada criteriosamente, não é considerada abuso na França.
Como terapeuta que trabalha com as crianças, faz todo o sentido para mim que as crianças francesas não precisem de medicamentos para controlar o seu comportamento, porque aprendem o auto-controle no início de suas vidas. As crianças crescem em famílias em que as regras são bem compreendidas, e a hierarquia familiar é clara e firme. Em famílias francesas, como descreve Druckerman, os pais estão firmemente no comando de seus filhos, enquanto que no estilo de família americana, a situação é muitas vezes o inverso.

 http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/05/deficit-de-atencao-nas-criancas-francesas.html

domingo, 19 de maio de 2013

Site com livros grátis

Um site com 926 livros em pdf.
Há alguns seminário de Lacan, obras de Freud (inclusive a tradução nova da Cia das Letras) e de diversos filósofos!
Muito bom! Recomendo!