segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

DISCIPLINA PENSAMENTO E LINGUAGEM: PLANO DE AULA 2015-1


Plano de Aula / Psicologia 2015-1
Docente: Roseli Maria Rodella de Oliveira
Disciplina: Pensamento e Linguagem               
  • Dia de aula: TERÇA-FEIRA - 20:25 – 22:00h                                                                           
  • Carga Horária: 40 H - 2º Período
  • Avaliação do 1º Bimestre:  14/04/15                                                                                  
  • Avaliação do 2º Bimestre: 09 /06/15
  • Avaliações de 2ª Chamada:   16/06/15                                                                                     
  • Exame Final: 30/12/15
Nº de aulas
Dia
Conteúdo Programático
Atividade
Recurso
02
10/02
Apresentação da disciplina informação sobre as atividades a serem desenvolvidas e forma de trabalho do professor.

Programa da disciplina

04
24/02
Processos básicos: a relação pensamento e linguagem. Introdução ao tema.

Data show
06
03/03
A relação pensamento e linguagem: definições para a Filosofia, para a Neurociências e para Psicologia.

Data show
08
07/03
SÁBADO
Estudos sobre a linguagem - na antiguidade clássica e no pensamento moderno I (o corte estruturalista).

Leitura MARCONDES, Danilo. Textos básicos de linguagem: De Platão a Foucault. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.
Data show
10
10/03
Estudos sobre a linguagem - o pensamento moderno II e III (Chomsky e a tradição americana da linguística, as posições antropológicas e sociolinguísticas). A análise de Discurso e o pensamento contemporâneo.
Leitura MARCONDES, Danilo. Textos básicos de linguagem: De Platão a Foucault. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.
Data show
12
24/03
A relação pensamento e linguagem: A aquisição da linguagem - a natureza e a cultura

BHATTACHARJEE, Yudhijit. No primeiro ano:  aurora da vida. IN: http://nationalgeographic.pt/index.php/ng-revista/79-edicoes/166/349-no-primeiro-ano acesso em: 08/02/2015
Data show
14
28/03
Sábado
A relação pensamento e linguagem: A aquisição da linguagem

Filme: O enigma de Kaspar Hauser
Filme
16
31/03

A relação pensamento e linguagem: a aquisição da linguagem nos ouvintes e na surdez
Resenha  do texto: SACHS, Oliver. Vendo Vozes: uma viagem ao mundo dos surdos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.  (p. 58-71)
Data show
18
07/04
Contribuições da linguagem à Psicologia
Filme: LEV VYGOTSKY (1896-1934) - Marta Kohl de Oliveira
Filme
20
14/04
AVALIAÇÃO DO 1º BIMESTRE



22
28/04
Contribuições da linguagem à Psicologia
Aula expositiva

24
0505
Principais noções: símbolo, signo, significado, significante, sentido, fala, língua, linguagem.
Aula expositiva
Data show
26
12/05
Produção de sentido, discurso e práticas discursivas Principais noções: linguagem, discurso, enunciado, enunciação, metáfora e metonímia.
Filme: Globo Ciência – Saussure e Skynner
Filme
28
19/05
Principais noções: símbolo, signo, significado, significante, sentido, fala, língua, linguagem, discurso, enunciado, enunciação, metáfora e metonímia
Resenha e estudo crítico do texto: Quinet, Antonio. A descoberta do Inconsciente. Rio de Janeiro:
Data show
30
26/05
Linguagem e Psicanálise: o mental é o discurso. Freud e a função de mal-entendido da linguagem.

Jorge Zahar Ed., 2000.  (p. 09-30)
Data show
32
02/06
AVALIAÇÃO DO 2º BIMESTRE

Estudo crítico do texto: Quinet, Antonio. A descoberta do Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
Data show
34
09/06
Linguagem e Psicanálise: o mental é o discurso. Freud e a função de mal-entendido da linguagem


36
16/06
SEGUNDA CHAMADA
Linguagem como estruturante da subjetividade: o inconsciente é estruturado como linguagem


38
23/06
Entrega de notas.
Linguagem como estruturante da subjetividade: o inconsciente é estruturado como linguagem


40
30/06
EXAME FINAL
Encerramento e avaliação da disciplina


I-              As atividades em vermelhos são as tarefas que os alunos deverão cumprir.
a)             RESENHA* e estudo crítico do texto: SACHS, Oliver. Vendo Vozes: uma viagem ao mundo dos surdos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.  (p. 58-71). Entregar dia 07/03 VALE NOTA.
b)             FILME: O enigma de Kaspar Hauser. Assistir para debate em sala dia 28/03
c)             RESENHA* e estudo crítico do texto: Quinet, Antonio. A descoberta do Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. (p. 09-30) Entregar dia 19/05 – VALE NOTA.
*Orientação para a elaboração das resenhas: Uma resenha é uma análise crítica de um texto em que você, com suas próprias palavras, sintetiza suas opiniões pessoais, demonstra sua compreensão do texto e o seu julgamento crítico sobre ele. Você deve utilizar-se das ideias do texto, citando-as para ilustrar o seu raciocínio. Mesmo sendo um texto acadêmico você pode utilizar as expressões: penso que..., parece-me que..., a meu ver..., considero que..., em minha opinião, etc.

II-             Programas, textos e informações da disciplina no Blog: http://roselirodella.blogspot.com.br/  

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

FREUD : Inconsciente humano


O INCONSCIENTE NÃO EXISTE SOZINHO

https://academiafreudiana.wordpress.com/2015/02/03/o-inconsciente-nao-existe-sozinho-freud-nao-explica-freud-implica/

O inconsciente não existe sozinho – Freud não explica… Freud implica!

Freud não inventou o inconsciente! Antes dele já se falava em inconsciente, assim como seu uso não se restringe à Psicanálise. O que diferencia o inconsciente proposto por Freud?
Aprendemos desde cedo na faculdade de psicologia, ou em alguma formação em psicanálise, que o inconsciente se manifesta através dos sonhos, atos falhos, chistes e lapsos. Bastaria alguém trocar um nome, esquecer outro, ter sonhado, e pronto, isso seria o inconsciente se “comunicando”.
É aqui que entra o diferencial do inconsciente freudiano. Todas estas manifestações serão pura fenomenologia (que não é psicanálise) a não ser que o sujeito se responsabilize por elas. Somente quando uma manifestação é levada para um status de questão, que pode ser considerada uma manifestação do inconsciente. Ou seja, o inconsciente se estabelece na clínica dentro de uma relação transferencial entre analisando e analista.
“Então quer dizer que se troquei um nome, ou sonhei, não significa que isso seja o inconsciente?”. Sim e não. Por um lado sim, aqui está o inconsciente em sua dinâmica própria, mas ao mesmo tempo não, pois, se não há responsabilidade do sujeito em reconhecer aquilo como um produto em que ele é agente, simplesmente se perde como “destino”, como “coisas da vida”, etc.
Para esclarecer:
“Uma regra de pensamento que tem que se assegurar do não -pensamento como aquilo que pode ser sua causa: é com isso que nos confrontamos ao usar a ideia de inconsciente.
É somente na medida do fora-de-sentido dos ditos – e não do sentido, como se costuma imaginar e como se supõe toda a fenomenologia – que existo como pensamento. Meu pensamento não é regulável a meu bel-prazer, acrescentemos ou não o infelizmente. Ele é regulado. Em meu ato, não almejo exprimi-lo, mas causa-lo. Porém não se trata do ato, e sim do discurso. No discurso, não tenho que seguir sua regra, e sim encontrar sua causa. No entre-senso – entendam isso, por mais obsceno que possam imaginá-lo – está o ser do pensamento.
O que é causa, ao passar pelo meu pensamento, deixa passar aquilo que existiu, pura e simplesmente, como ser. Isso porquê, ali por onde ela passou, ela já é desde sempre passada, produzindo efeitos de pensamento.” – Lacan, Seminário 16, p. 13
Onde a fala tropeça, e o sujeito se desconhece, se estranha, se pergunta, aqui está o seu inconsciente, que encontrará suporte no analista em seu semblante de Sujeito Suposto Saber por carregar o “objeto a” no bolso.
Freud não explica… Freud implica!
saulo@academiafreudiana.com.br

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Pesquisa sugere que não há relação entre autismo e anatomia cerebral

Estudo com mais de mil voluntários sugere que não há relação 

entre autismo e anatomia cerebral

Maior pesquisa de neuroimagem com autistas feita até hoje questiona resultados de trabalhos anteriores

http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/estudo_com_mais_de_mil_voluntarios_sugere_que_nao_
ha_relacao_entre_autismo_e_anatomia_cerebral.html

novembro de 2014
Akesak/Shutterstock




Pessoas com autismo têm fundamentalmente a mesma constituição cerebral daquelas sem a síndrome, constata o psicólogo e pesquisador Ilan Dinstein, da Universidade Ben-Gurion do Negev, em Israel. Um dos autores do maior estudo de imagens neurais feito até hoje, ele afirma que pesquisas anteriores que tentaram explicar a síndrome por meio de diferenças no cérebro cometeram falhas graves.

Dinstein submeteu a ressonância magnética funcional mais de mil indivíduos entre 6 e 35 anos: 500 com o distúrbio e 500 saudáveis (grupo de controle). Ele e sua equipe dividiram cada cérebro (figurativamente) em 180 regiões e as investigaram minuciosamente, além de avaliar várias medidas anatômicas, como volume, área superficial e espessura de cada região (e não apenas o tamanho ou determinada estrutura, como a amígdala, por exemplo). E – pela primeira vez – examinaram metodicamente as diferenças dentro de cada grupo, em comparação com a heterogeneidade entre ambos, segundo os autores.

Os cientistas não encontraram nenhuma alteração estatisticamente significativa no volume do cérebro entre o grupo de controle e o de pessoas com autismo. O psicólogo alerta para o fato de que o órgão varia drasticamente de tamanho de uma pessoa para outra. A diferença pode chegar a 90% dentro de um grupo. Por incrível que pareça, ele garante, o cérebro de alguns é quase o dobro do tamanho do de outros.

Segundo os pesquisadores, hipóteses anteriores sugeriam que a síndrome poderia estar associada com maior quantidade de massa cinzenta intracraniana (o material do próprio cérebro) e de substância branca (tecido nervoso) ou com maior volume da amígdala. Alguns cientistas, por outro lado, consideraram que o transtorno poderia estar relacionado com menor cerebelo, corpo caloso e tamanho do hipocampo.

Dinstein mostra que esse tipo de pesquisa é inconsistente por vários fatores. Segundo ele, a utilização de amostras pequenas (20 ou 30 voluntários), a tendência a se concentrar em uma área específica do cérebro (como a amígdala), a pressão para publicar resultados positivos e o fato de não observar com cuidado as grandes diferenças anatômicas naturais entre cérebros podem distorcer os resultados. O psicólogo afirma que os cientistas não desconhecem esses fatos, mas muitos optam por não considerá-los nos estudos.

“Há resultados tão incongruentes que alguns grupos de pesquisa afirmaram ter encontrado amígdala maior em pessoas com autismo, enquanto outros apontaram o contrário”, alerta. Dinstein argumenta que o distúrbio engloba diferentes síndromes e se apresenta de várias formas, numa gradação que vai de leve a grave. “Não podemos ser ingênuos e esperar uma resposta única para todos os casos. Apenas medidas cerebrais não são suficientes para identificar o autismo. Suas origens, evidentemente, estão em vários lugares”, conclui no artigo publicado na Cerebral Cortex.

Leia mais

A teoria da mente
Para Uta Frith e Baron-Cohen, maior anormalidade do autismo é a incapacidade de elaborar sobre a mente alheia

Risco alto de autismo pode ser detectado aos 18 meses de idade
Estudo em larga escala com bebês consegue identificar sintomas do transtorno no primeiro ano de vida

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

TRANSFORMAMOS PROBLEMAS COTIDIANOS EM TRANSTORNOS MENTAIS

allen-frances
Allen Frances
Allen Frances (Nova York, 1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais. Esse manual, considerado a bíblia dos psiquiatras, é revisado periodicamente para ser adaptado aos avanços do conhecimento científico. Frances dirigiu a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta revisão que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos. Em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.
Pergunta. No livro, o senhor faz um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de seus colegas do DSM V. Por quê?
Resposta. Fomos muito conservadores e só introduzimos [no DSM IV] dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos. Ao acabar, nos felicitamos, convencidos de que tínhamos feito um bom trabalho. Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.
P. Seremos todos considerados doentes mentais?
R. Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da última revisão e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia: vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.
P. Com a colaboração da indústria farmacêutica...
R. É óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar.
P. O que propõe para frear essa tendência?
R. Controlar melhor a indústria e educar de novo os médicos e a sociedade, que aceita de forma muito acrítica as facilidades oferecidas para se medicar, o que está provocando além do mais a aparição de um perigosíssimo mercado clandestino de fármacos psiquiátricos. Em meu país, 30% dos estudantes universitários e 10% dos do ensino médio compram fármacos no mercado ilegal. Há um tipo de narcótico que cria muita dependência e pode dar lugar a casos de overdose e morte. Atualmente, já há mais mortes por abuso de medicamentos do que por consumo de drogas.
P. Em 2009, um estudo realizado na Holanda concluiu que 34% das crianças entre 5 e 15 anos eram tratadas por hiperatividade e déficit de atenção. É crível que uma em cada três crianças seja hiperativa?
R. Claro que não. A incidência real está em torno de 2% a 3% da população infantil e, entretanto, 11% das crianças nos EUA estão diagnosticadas como tal e, no caso dos adolescentes homens, 20%, sendo que metade é tratada com fármacos. Outro dado surpreendente: entre as crianças em tratamento, mais de 10.000 têm menos de três anos! Isso é algo selvagem, desumano. Os melhores especialistas, aqueles que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados. Perdeu-se o controle.
P. E há tanta síndrome de Asperger como indicam as estatísticas sobre tratamentos psiquiátricos?
R. Esse foi um dos dois novos transtornos que incorporamos no DSM IV, e em pouco tempo o diagnóstico de autismo se triplicou. O mesmo ocorreu com a hiperatividade. Calculamos que, com os novos critérios, os diagnósticos aumentariam em 15%, mas houve uma mudança brusca a partir de 1997, quando os laboratórios lançaram no mercado fármacos novos e muito caros, e além disso puderam fazer publicidade. O diagnóstico se multiplicou por 40.
P. A influência dos laboratórios é evidente, mas um psiquiatra dificilmente prescreverá psicoestimulantes a uma criança sem pais angustiados que corram para o seu consultório, porque a professora disse que a criança não progride adequadamente, e eles temem que ela perca oportunidades de competir na vida. Até que ponto esses fatores culturais influenciam?
R. Sobre isto tenho três coisas a dizer. Primeiro, não há evidência em longo prazo de que a medicação contribua para melhorar os resultados escolares. Em curto prazo, pode acalmar a criança, inclusive ajudá-la a se concentrar melhor em suas tarefas. Mas em longo prazo esses benefícios não foram demonstrados. Segundo: estamos fazendo um experimento em grande escala com essas crianças, porque não sabemos que efeitos adversos esses fármacos podem ter com o passar do tempo. Assim como não nos ocorre receitar testosterona a uma criança para que renda mais no futebol, tampouco faz sentido tentar melhorar o rendimento escolar com fármacos. Terceiro: temos de aceitar que há diferenças entre as crianças e que nem todas cabem em um molde de normalidade que tornamos cada vez mais estreito. É muito importante que os pais protejam seus filhos, mas do excesso de medicação.
P. Na medicalização da vida, não influi também a cultura hedonista que busca o bem-estar a qualquer preço?
R. Os seres humanos são criaturas muito maleáveis. Sobrevivemos há milhões de anos graças a essa capacidade de confrontar a adversidade e nos sobrepor a ela. Agora mesmo, no Iraque ou na Síria, a vida pode ser um inferno. E entretanto as pessoas lutam para sobreviver. Se vivermos imersos em uma cultura que lança mão dos comprimidos diante de qualquer problema, vai se reduzir a nossa capacidade de confrontar o estresse e também a segurança em nós mesmos. Se esse comportamento se generalizar, a sociedade inteira se debilitará frente à adversidade. Além disso, quando tratamos um processo banal como se fosse uma enfermidade, diminuímos a dignidade de quem verdadeiramente a sofre.
P. E ser rotulado como alguém que sofre um transtorno mental não tem consequências também?
R. Muitas, e de fato a cada semana recebo emails de pais cujos filhos foram diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados por causa do preconceito que esse rótulo acarreta. É muito fácil fazer um diagnóstico errôneo, mas muito difícil reverter os danos que isso causa. Tanto no social como pelos efeitos adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está crescendo uma corrente crítica em relação a essas práticas. O próximo passo é conscientizar as pessoas de que remédio demais faz mal para a saúde.
P. Não vai ser fácil…
R. Certo, mas a mudança cultural é possível. Temos um exemplo magnífico: há 25 anos, nos EUA, 65% da população fumava. Agora, são menos de 20%. É um dos maiores avanços em saúde da história recente, e foi conseguido por uma mudança cultural. As fábricas de cigarro gastavam enormes somas de dinheiro para desinformar. O mesmo que ocorre agora com certos medicamentos psiquiátricos. Custou muito deslanchar as evidências científicas sobre o tabaco, mas, quando se conseguiu, a mudança foi muito rápida.
P. Nos últimos anos as autoridades sanitárias tomaram medidas para reduzir a pressão dos laboratórios sobre os médicos. Mas agora se deram conta de que podem influenciar o médico gerando demandas nos pacientes.
R. Há estudos que demonstram que, quando um paciente pede um medicamento, há 20 vezes mais possibilidades de ele ser prescrito do que se a decisão coubesse apenas ao médico. Na Austrália, alguns laboratórios exigiam pessoas de muito boa aparência para o cargo de visitador médico, porque haviam comprovado que gente bonita entrava com mais facilidade nos consultórios. A esse ponto chegamos. Agora temos de trabalhar para obter uma mudança de atitude nas pessoas.
P. Em que sentido?
R. Que em vez de ir ao médico em busca da pílula mágica para algo tenhamos uma atitude mais precavida. Que o normal seja que o paciente interrogue o médico cada vez que este receita algo. Perguntar por que prescreve, que benefícios traz, que efeitos adversos causará, se há outras alternativas. Se o paciente mostrar uma atitude resistente, é mais provável que os fármacos receitados a ele sejam justificados.
P. E também será preciso mudar hábitos.
R. Sim, e deixe-me lhe dizer um problema que observei. É preciso mudar os hábitos de sono! Vocês sofrem com uma grave falta de sono, e isso provoca ansiedade e irritabilidade. Jantar às 22h e ir dormir à meia-noite ou à 1h fazia sentido quando vocês faziam a sesta. O cérebro elimina toxinas à noite. Quem dorme pouco tem problemas, tanto físicos como psíquicos.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

DISCIPLINA PENSAMENTO E LINGUAGEM - LEV VYGOTSKY




LEV VYGOTSKY (1896-1934)
Resumo do filme - Marta Kohl de Oliveira


DISCIPLINA PENSAMENTO E LINGUAGEM
Profª MSc Roseli Maria Rodella de Oliveira
rrodella@gmail.com
LEV VYGOTSKY (1896-1934)
Resumo do filme - Marta Kohl de Oliveira
I.       Dados Biográficos:
- Trabalhou com Leontiev e Luria;
- Autor fundamental para os estudos da Psicologia da Educação.
II.       Idéias fundamentais:
1.            Planos genéticos do desenvolvimento – quer dizer que o funcionamento psicológico não é inato, não esta pronto previamente, mas também não é recebido do meio ambiente como um pacote pronto. Teoria interacionista – que leva em conta coisas que vem de dentro do sujeito e do ambiente.
Para o autor são 4 entradas de desenvolvimento que juntas caracterizariam o funcionamento psicológico do ser humano:
a) Filogênese - Historia da espécie. Esta história da espécie define limites e possibilidades de funcionamento psicológico. Na espécie humana temos uma característica fundamental que é a plasticidade do cérebro (nossa espécie é a menos pronta ao nascer e, por isso, depende também do ambiente);
b) Ontogênese – História do indivíduo da espécie, do ser. O membro individual tem um caminho de desenvolvimento;
Como na filogênese, a ontogênese, também é de natureza muito biológica, diz respeito à pertinência do homem à espécie e por ser membro dessa espécie passa por certa sequência de desenvolvimento;
c) Sociogênese - Historia cultural onde o sujeito esta inserido. Ou seja, as formas de funcionamento cultural que interferem no funcionamento psicológico do indivíduo;
d) Microgênese Um aspecto mais microscópio do desenvolvimento. Cada fenômeno psicológico tem sua própria história, com foco bem definido (micro).
A microgênese é a porta aberta dentro da teoria para o não determinismo. Aparece então a possibilidade da construção da singularidade porque ninguém tem uma história igual ao do outro. Tem fatos diferenciados na vida de cada um que irão definir a singularidade do sujeito.
2.   Mediação Simbólica
A invenção e o uso de signos é análogo a invenção do uso de instrumentos, só que agora no campo psicológico.
Mediação = intermediação (uma coisa interposta entre uma coisa e outra).
A idéia de Vygotisky é que a relação entre o homem e o mundo é uma relação mediada, não é direta. A mediação pode ser feita através de instrumentos e de signos.
*      Instrumentos (ferramentas – uso faca para cortar o pão). A mediação é concreta;
*      Signos - formas de mediação – simbólicos (semiótica) entre o sujeito e o objeto de conhecimento, entre o psiquismo e o mundo, o eu e o mundo, de uma forma que não é concreta, mas simbólica.
Planos que aparecem os signos:
a)    Há uma primeira forma de signos que ainda tem uma existência concreta (banheiro masculino e feminino - chapéu e sombrinha - signos que representam a idéia de masculino e feminino e todos compartilham dessa Ideia), Esta marcado no mundo fora de mim, mas não é de natureza instrumental, age num plano simbólico;
b)    Plano totalmente simbólico: totalmente simbólicos e internalizados. Fazem a intermediação entre minha pessoa e o mundo. As coisas são postas para dentro dos sistemas psicológicos da gente. Funcionam como mediadores semióticos, simbólicos, dentro do nosso sistema psicológico. Por isso, uma característica humana, a possibilidade de representação mental, de transitar por um mundo que é só simbólico. Ex: Mesa – não me relaciono com ela somente pela via perceptual, mas também vejo aquele objeto e me remete a uma coisa que esta dentro da minha cabeça que é o conceito, a idéia, a palavra, a imagem de mesa. Tem umas coisas que estão dentro de mim que não é o próprio mundo, mas suas representações.

Possibilidade de representação mental
                                    
                    Conceito/Ideia/palavra = na mente
                                                                                              Humano
Relação com o mundo:
a)    Direta: Por ex: a criança compreende que vela queima o dedo porque coloca o dedo na chama;
b)    Mediada: A informação do outro que a vela queima já transmite o significado de queimar, de fogo. Ou em uma segunda experiência, a criança, ao chegar perto do fogo vai afastar o dedo porque vai lembrar  da experiência passada, a dor, ou seja, é mediada pela experiência anterior.
*      Grande parte da experiência dos homens é mediada, não precisamos viver tudo para aprender.
3.  Pensamento e Linguagem
Na ausência de um sistema de signos, somente um tipo primitivo de comunicação torna-se possível.
- Animal - não informa o que viu, não comunica, mas contagia o outro animal com seu medo.
- Humano – a língua, a fala, o discurso – o principal instrumento de representação simbólica. Não é linguagem para Vygostisky, mas a língua, porque não é de qualquer linguagem que ele fala, com a linguagem da dança, dos gestos, etc.
Signos – são construídos culturalmente. O principal lugar cultural onde isso acontece é na língua, ela é o principal instrumento de representação simbólica.
3.1 Linguagem
Duas funções básicas da linguagem:
a) Comunicação – Também presente nos animais. É assim que a linguagem também nasce para o ser humano, como forma de comunicação;
b) Pensamento generalizante – aparece mais tarde no desenvolvimento humano - onde a língua encaixa com o pensamento – o uso da linguagem implica uma compreensão generalizada do mundo. Ao nomear alguma coisa já estou realizando um ato de generalização. Ex: Se nomeio de cachorro, coloco os outros cachorros na mesma categoria e também distingo os cachorros dos outros que não são cachorros. Uma palavra já serve para classificar o mundo em 2 categorias. (Cachorro e não cachorro, copo e não copo, etc.). O ato de nomear é um ato de classificar.
Somos capazes de abstrair, generalizar, classificar porque dispomos de um sistema simbólico articulado, compartilhado, organizado por regras que nenhuma outra espécie animal possui.


Sistema Simbólico Compartilhado


- abstrair

- generalizar   ------ 
- classificar







O significado de uma palavra representa um amalgama tão estreito do pensamento e linguagem que fica difícil dizer que se se trata de um fenômeno da fala ou do pensamento. Do ponto de vista da psicologia o significado de cada palavra é uma generalização ou um conceito. Como as generalizações o os conceitos são atos de pensamentos; podemos pensar o significado como um fenômeno do pensamento.
Para Vygotisky a relação entre pensamento e linguagem é muito forte e muito tipicamente humana e muito importante para o que é o funcionamento psicológico humano. Essa relação não nasce com o sujeito, é desenvolvida ao longo do desenvolvimento psicológico, tanto na historia da espécie, na filogênese, quanto na historia do individuo, na ontogênese.
1°) Primeiro existe linguagem (comunicação) e pensamento separados em todas as espécies animais. Gestos, sons, expressão faciais e primórdios de pensamento são chamados na psicologia de Inteligência Pratica. Resolvemos, nesse período, problemas a partir do contexto perceptual próximo (Ex: macaco-pega a banana se tiver uma vara no mesmo campo visual). Este é um plano concreto, sem mediação simbólica - ocorre também no bebê (Ex: pega um banquinho para alcançar um brinquedo). Nesse momento tem primórdio de pensamento, que é chamado na psicologia de inteligência prática e a função comunicacional da linguagem.
2°) Mais tarde pensamento e linguagem se unem e irão representar uma parte substancial do funcionamento psicológico humano. Passam a funcionar em plano simbólico e a Inteligência é abstrata. Passam a ser capaz de circular por momentos e espaços ausentes do espaço perceptual presente. Podemos ser capaz de imaginar, inventar, criar, recuperar coisas que aconteceram no passado. Passamos a ter uma inteligência, um pensamento de natureza simbólica. Isso é possibilitado pela linguagem. Inicialmente pela função generalizante da linguagem e também por várias outras características da linguagem. Por ex: o fato de termos verbos, presente, passado e futuro, permite que a gente transite pelo tempo em termos simbólicos; o fato de termos a negação possibilita que concebemos o não, a inexistência, o zero, a ausência.
A relação entre pensamento e a palavra é um movimento contínuo de vai-e-vem do pensamento para a palavra e vice-versa.  O pensamento não é simplesmente expresso em palavras, é por meio delas que ele passa a existir.
 A língua é uma coisa que está fora da pessoa inicialmente. A criança nasce num meio falante e ela vai se apropriar dessa língua ao longo do seu desenvolvimento, que acontece de fora para dentro. O primeiro uso da linguagem é o que ele chama de fala socializada. É a fala da criança com os outros, para o outros, só do lado de foras dela. Com uma função comunicativa inicial.
O ponto de chegada da língua, o mais desenvolvido de todos, é o chamado de discurso interior. É o fato de que a gente incorpora um sistema simbólico, no nosso aparato psicológico, e é capaz de ter internamente esse plano simbólico do funcionamento psicológico com o suporte da língua. Mas está dentro de mim, não preciso falar alto. Meu pensamento acontece apoiado nas palavras, nos conceito, mas eu não preciso externá-lo, ele funciona dentro da minha cabeça. Eu penso sozinho com o suporte das palavras, com o modo de pensar da minha língua, com as possibilidades de transito pelo mundo do simbólico que a minha língua me fornece, mas tudo isso dentro da minha cabeça.
Então, as coisas começam do lado de fora e acabam internalizadas.
 Vygotisky propõe também que entre o que acontece fora e dentro acontece um momento do desenvolvimento que é a fala egocêntrica. A criança por volta de três, quatro anos fala sozinha. Ela fala alto e não precisa de um interlocutor. Este fenômeno foi identificado por Piaget e Vygotisky se apropria da idéia mas o usa com outra concepção, porque Vygotisky trabalha as coisas de fora para dentro e Piaget de dentro para fora.
Piaget - existe fala egocêntrica, mas é um indicador que o desenvolvimento está saindo de dentro para fora.
Vygotsky – é exatamente o oposto – a existência da fala egocêntrica indica que ela esta sendo posta para dentro. O falar sozinho é como se ela estivesse usando um formato ainda socializado da língua, que é falar alto, mas com uma função já do discurso interior que é a fala para mim. Aparece muito quando ela está em dificuldade cognitiva, o que evidencia que a linguagem é um instrumento de pensamento. Ela usa a língua para ajudar a resolver problemas.

A RITALINA E OS RISCO DE UM 'GENOCÍDIO FUTURO'

A ritalina e os riscos de
um 'genocídio do futuro'


Para uns, ela é uma droga perversa. Para outros, a 'tábua de salvação'. Trata-se da ritalina, o metilfenidato, da família das anfetaminas, prescrita para adultos e crianças portadores de transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Teria o objetivo de melhorar a concentração, diminuir o cansaço e acumular mais informação em menos tempo. Esse fármaco desapareceu das prateleiras brasileiras há poucos meses (e já começou a voltar), trazendo instabilidade principalmente aos pais, pela incerteza do consumo pelos filhos. Ocorre que essa droga pode trazer dependência química, pois tem o mesmo mecanismo de ação da cocaína, sendo classificada pela Drug Enforcement Administration como um narcótico. No caso de consumo pela criança, que tem seu organismo ainda em fase de formação, a ritalina vem sendo indicada de maneira indiscriminada, sem o devido rigor no diagnóstico. Tanto que, no momento, o país se desponta na segunda posição mundial de consumo da droga, figurando apenas atrás dos Estados Unidos. Como acontece com boa parte dos medicamentos da família das anfetaminas, a ritalina 'chafurda' a ilegalidade, com jovens procurando a euforia química e o emagrecimento sem dispor de receita médica. Fala-se muito que, se não fizer o tratamento com a ritalina, o paciente se tornará um delinquente. "Mas nenhum dado permite dizer isso. Então não tem comprovação de que funciona. Ao contrário: não funciona", critica a pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. “A gente corre o risco de fazer um genocídio do futuro. Mais vale a orientação familiar”, encoraja a pediatra, que concedeu entrevista, a seguir, ao Portal Unicamp.
Portal Unicamp – Há pouco tempo, faltou distribuição de ritalina no mercado brasileiro. Como essa lacuna foi sentida?
Cida Moysés – Não sabemos verdadeiramente o motivo de faltar o medicamento, mas isso criou uma instabilidade nas pessoas. As famílias ficaram muito preocupadas e entraram em pânico, com medo de que os filhos ficassem sem esse fornecimento. Isso foi sentido de um modo muito mais intenso do que com outros medicamentos que de fato demonstram que sua interrupção seria mais complicada que a ritalina. São os casos dos medicamentos para diabetes ou hipertensão. Apesar de não conhecermos a razão dessa falta do medicamento, sabemos das estratégias de mercado para outros produtos como o açúcar e o café que faltam no supermercado e, por isso, também para os medicamentos que faltam na farmácia. Quando somem das prateleiras, eles criam angústia. No entanto, em geral, retornam mais tarde. E mais caros, é óbvio.
Portal Unicamp – O que é a ritalina? Como ela age?
Cida Moysés – A ritalina, assim como o concerta (que tem a mesma substância da ritalina – o metilfenidato, é um estimulante do sistema nervoso central - SNC), tem o mesmo mecanismo de ação das anfetaminas e da cocaína, bem como de qualquer outro estimulante. Ela aumenta a concentração de dopaminas (neurotransmissor associado ao prazer) nas sinapses, mas não em níveis fisiológicos. É certo que os prazeres da vida também fazem elevar um pouco a dopamina, porém durante um pequeno período de tempo. Contudo, o metilfenidato aumenta muito mais. Assim, os prazeres da vida não conseguem competir com essa elevação. A única coisa que dá prazer, que acalma, é mais um outro comprimido de metilfenidato, de anfetamina. Esse é o mecanismo clássico da dependência química. É também o que faz a cocaína.
Portal Unicamp – Quando a ritalina é indicada?
Cida Moysés – Para quem indica, é nos casos com diagnóstico de TDAH. Eu não indico. Para esses médicos, entendo que é necessário traçar uma relação custo-benefício: quanto ganho com esse tratamento em termos de vantagens e de desvantagens. Sabe-se que é uma droga que possui inúmeras reações adversas, como qualquer droga psicoativa. Considero extremamente complicado usar uma droga com essas reações para melhorar o comportamento de uma criança. Qual é o preço disso?

Portal Unicamp – Quais são os sintomas principais?
Cida Moysés – As reações adversas estão em todo o organismo e, no sistema nervoso central então, são inúmeras. Isso é mencionado em qualquer livro de Farmacologia. A lista de sintomas é enorme. Se a criança já desenvolveu dependência química, ela pode enfrentar a crise de abstinência. Também pode apresentar surtos de insônia, sonolência, piora na atenção e na cognição, surtos psicóticos, alucinações e correm o risco de cometer até o suicídio. São dados registrados no Food and Drug Administration (FDA). São relatos espontâneos feitos por médicos. Não é algo desprezível. Além disso, aparecem outros sintomas como cefaleia, tontura e efeito zombie like, em que a pessoa fica quimicamente contida em si mesma.
Portal Unicamp – Não é pouca coisa...
Cida Moysés – Ocorre que isso não é efeito terapêutico. É reação adversa, sinal de toxicidade. Além disso, no sistema cardiovascular é possível ter hipertensão, taquicardia, arritmia e até parada cardíaca. No sistema gastrointestinal, quem já tomou remédio para emagrecer conhece bem essas reações: boca seca, falta de apetite, dor no estômago. A droga interfere em todo o sistema endócrino, que interfere na hipófise. Altera a secreção de hormônios sexuais e diminui a secreção do hormônio de crescimento. Logo, as crianças ficam mais baixas e também essa droga age no peso. Verificando tudo isso, a relação de custo-benefício não vale a pena. Não indico metilfenidato para as crianças. Se não indico para um neto, uma criança da família, não indico para uma outra criança.
Portal Unicamp – Criança não comportada é um problema social?
Cida Moysés – Está se tornando. E não vai se resolver colocando um diagnóstico de uma doença neurológica ou neuropsiquiátrica e administrando um psicotrópico para uma criança.

Portal Unicamp – Qual seria o tratamento então?
Cida Moysés – Um levantamento de 2011, publicado pelo equivalente ao Ministério da Saúde nos Estados Unidos, envolve uma pesquisa feita pelo Centro de Medicina baseado em Evidências da Universidade de McMaster, no Canadá, que analisou todas as publicações de 1980 a 2010 sobre o tratamento de TDAH. O primeiro dado interessante foi que, dos dez mil trabalhos que provaram que o metilfenidato funciona, é seguro, apenas 12 foram considerados publicações científicas. Todo o resto foi descartado por não preencher os critérios de cientificidade. Esse é um aspecto muito importante. Dos 12 trabalhos restantes, o que eles encontraram foi que a orientação familiar tem alta evidência de bons resultados, e o medicamento tem baixa evidência. Isso não quer dizer que a família seja culpada. É preciso orientá-la como lidar com essa criança. Além disso, os dados dessa pesquisa sobre rendimento escolar foram inconclusivos, assim como não há nenhum dado que permita dizer que melhora o prognóstico em longo prazo. Fala-se muito que, se a criança não for tratada, vai se tornar uma dependente química ou delinquente. Nenhum dado permite dizer isso. Então não tem comprovação de que funciona. Ao contrário: não funciona. E o que está acontecendo é que o diagnóstico de TDAH está sendo feito em uma porcentagem muito grande de crianças, de forma indiscriminada.
Portal Unicamp – Dê um exemplo.
Cida Moysés – Quando se fala em 5% a 10% de pessoas com determinado problema, o conhecimento médico exige que se assuma que isso é um produto social, e não uma doença inata, neurológica, como seria o TDAH, e muito menos genética. Não dá para pensar em porcentagens. Em Medicina, sobre doenças desse tipo fala-se em 1 para 100 mil ou em 1 para 1 milhão. Então, é algo socialmente que vem se produzindo. Quando digo isso, de novo, não estou dizendo que a família é a culpada. Pelo contrário, é um modo de viver que estamos produzindo.
Portal Unicamp – Quem está sendo medicado?
Cida Moysés – São as crianças questionadoras (que não se submetem facilmente às regras) e aquelas que sonham, têm fantasias, utopias e que ‘viajam’. Com isso, o que está se abortando? São os questionamentos e as utopias. Só vivemos hoje num mundo diferente de 1.000 anos atrás porque muita gente questionou, sonhou e lutou por um mundo diferente e pelas utopias. Quando impedimos isso quimicamente, segundo a frase de um psiquiatra uruguaio, “a gente corre o risco de estar fazendo um genocídio do futuro”.  Estamos dificultando, senão impedindo, a construção de futuros diferentes e mundos diferentes. E isso é terrível.

Portal Unicamp – Na França, o TDAH é praticamente zero. A que se deve isso?
Cida Moysés – Isso se deve a valores culturais, fundamentalmente.
Portal Unicamp – Isso em países desenvolvidos?
Cida Moysés – Não necessariamente. Ninguém pode dizer que os EUA não sejam desenvolvidos. Não obstante, o país é o primeiro grande consumidor mundial da ritalina, da onde irradia tudo. O Brasil vem logo em seguida, como segundo consumidor mundial. Ao contrário do que se propaga, de que a taxa de prevalência é a mesma em todos os lugares, isso não é verdade. Varia de 0,1% a 20%, conforme o estudo da Universidade McMaster do Canadá. Varia de acordo com valores culturais, região geográfica, época e conforme o profissional que está avaliando. Há trabalhos que mostram, por exemplo, que médicas diagnosticam mais TDAH em meninos e que médicos mais em meninas, provavelmente por uma falta de identificação. Alguns trabalhos mostram que crianças pobres têm mais chances de receber o diagnóstico. Estamos falando de uma Era dos Transtornos – uma epidemia dos diagnósticos. A França tem uma resistência muito grande a isso por uma questão de formação de médicos, de valores da sociedade. Lá eles têm um movimento muito grande desencadeado por médicos, muitos deles psiquiatras, que se chama collectif pas de 0 de conduite. Esse movimento surgiu como reação à lei que propunha avaliar o comportamento de todas as crianças até três anos de idade. Era um modelo que pegava especificamente pobres e imigrantes. O movimento conseguiu derrubar tal lei.
Portal Unicamp – Existe no Brasil alternativa diferente da medicalização, da visão organicista?
Cida Moysés – Temos uma articulação mais recente que é o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, o qual eu e o Departamento de Pediatria da FCM-Unicamp integramos. O nosso Departamento é o seu membro fundador, tendo mais de 40 entidades acadêmicas profissionais e mais de 3.000 pessoas físicas no Brasil, que estão buscando difundir as críticas que existem na literatura científica sobre isso. Além do mais, procuramos construir outros modos de acolher e de atender as necessidades das famílias dos jovens que vivenciam e sofrem com esses processos de medicalização. Em novembro, a Unicamp promoverá um Fórum Permanente sobre Medicalização da Vida, que irá abordar essas questões de medicalização e de patologização da vida. Todos estão convidados.