sexta-feira, 4 de abril de 2014

Relato emocionante do filho sobre a esquizofrenia do pai.

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-90/historia-pessoal/sobre-meu-pai


SOBRE MEU PAI

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-90/historia-pessoal/sobre-meu-pai

Para mim foi impossível durante vinte anos nomear sua doença

por SAULO SZINKARUK BARBOSA

Era um ritual que Roberto repetia com frequência. Vestia meias grossas, calças de lã, camiseta, camisa, pulôver de gola em V e sobretudo. Deitava-se sobre a colcha de chenile que cobria a cama feita. Cruzava as mãos sobre o peito e assim permanecia. Totalmente imóvel, não fossem os olhos a perscrutar ansiosos o teto do quarto, como quem tenta identificar com a visão o barulho que os ouvidos estão esperando. Quando sua mulher perguntava o que estava fazendo, a resposta vinha firme, com convicção: “Estou pronto para a guerra.”

E não adiantava ela lhe dizer que não havia guerra nenhuma, ou que era verão e tanta roupa só podia fazer mal. Porque Roberto Oliveira Barbosa, meu pai, era esquizofrênico.

Hoje, dizer isso assim, com todas as letras, é até fácil. Mas durante os primeiros vinte anos da minha vida foi impossível. Em parte porque, embora desde cedo tivessem me dito que meu pai era doente e que eu precisava entender, ninguém nunca me contou o que ele tinha, nem se algum dia se curaria. Não que minha família fosse relapsa comigo ou com meu irmão mais novo, ignorando as consequências que a esquizofrenia do nosso pai poderia nos causar. Apenas foi o jeito que minha mãe e meus avós paternos encontraram para lidar com a situação. Um padrão de comportamento que desde cedo aprendi a replicar, e que de certo modo explica por que demorei tanto para encarar os fatos: a gente ia levando, tentando deixar tudo o mais normal possível, contornando as crises da doença com paciência, silenciando e baixando os olhos quando os delírios incluíam acusações descabidas ou frases que doíam, e nunca, nunca discutíamos o problema depois que o pior passava. Era no silêncio cúmplice e na rotina que se restabelecia – um almoço sem incidentes, uma tarde de chimarrão e conversa fiada – que encontrávamos o equilíbrio para aguentar firme e seguir adiante.

É verdade que as crises mais intensas, ao que me lembre, eram esparsas. A medicação mantinha meu pai consideravelmente lúcido e coerente boa parte do tempo, ainda que ele não fosse capaz de trabalhar ou se envolver em alguma tarefa que exigisse comprometimento. Quem não soubesse da esquizofrenia podia facilmente pensar que se tratava de um sujeito na plenitude das suas faculdades mentais. Um pouco calado, talvez, mas nada além disso. Era preciso um contato mais demorado para perceber as distorções do cérebro doente, que em geral surgiam em raciocínios e conclusões estabelecidas a partir de lógicas muito particulares.

Lembro uma ocasião em que estávamos almoçando na casa dos meus avós e meu pai, do nada, sugeriu seriamente que todos rompêssemos com um parente distante. Não fizemos nenhuma pergunta – conhecíamos exatamente aquele tipo de situação. Ele explicou mesmo assim. Disse que certa vez estava andando na rua com algumas pessoas e que, quando uma delas mencionou o tal parente, ele tropeçou. Era evidente, portanto, que o sujeito não era boa pessoa e que devíamos evitá-lo. Situações assim eram bastante frequentes, tanto que todos sabíamos que o melhor era ignorar, logo ele esqueceria e tudo seguiria seu curso.

Sem a medicação, porém, ou quando por algum motivo ela era trocada ou tinha a dosagem ajustada, a coisa mudava de figura. Aí, sim, precisávamos tratar com uma pessoa sem nenhuma capacidade de discernimento. Felizmente meu pai não era violento ou autodestrutivo. Suas atitudes nas crises mais fortes eram apenas excêntricas e embaraçosas: cobria os móveis da casa com lençóis porque achava que eles estavam com frio; andava pelas ruas a pé como se estivesse de carro, respeitando as mãos do trânsito; conversava efusivamente sozinho, com o cenho franzido e as mãos agitadas; elucubrava projetos sem sentido. Certa feita cismou que deveria trocar seu nome para Vitoffbar, sigla que criou juntando as primeiras letras de todos os sobrenomes da árvore genealógica da família.

Mesmo assim, e por mais que as crises me envergonhassem, nunca procurei esconder meu pai. Meus amigos da rua e colegas de colégio frequentavam minha casa. Quando éramos mais novos, eles faziam perguntas: “O que teu pai faz?”, “Ele está de férias?”, “Por que teu pai está em casa a essa hora?” Eu respondia que ele cuidava dos negócios da família; meu irmão preferia dizer que ele era advogado. Depois que entramos na adolescência, as perguntas cessaram. Aos poucos meus amigos compreenderam a situação, ou foram alertados por seus pais. De mim, nunca nenhum deles ouviu nada. Eu ainda levaria muitos anos para ser capaz de falar sobre o assunto com alguém.

A esquizofrenia é uma doença que a medicina tenta entender. Atualmente, acredita-se que sua causa esteja numa combinação de fatores genéticos e comportamentais, como o ambiente familiar e experiências traumáticas. Na minha família paterna, o histórico de transtornos mentais é considerável, se bem que mal documentado e raramente diagnosticado. Já ouvi histórias sobre meu bisavô, avô do meu pai, ser “meio esquisito”, mas daí a saber do que exatamente ele sofria vai uma longa distância. São lembranças puídas pelo tempo, de uma época em que o máximo de precisão a que o médico chegava era afirmar que o paciente “sofria dos nervos”. Ouvi também relatos de primos cujas vidas foram de alguma forma desviadas do curso normal por algum tipo de impedimento mental.

A história do meu pai segue o que a literatura médica define como padrão da esquizofrenia. A vida corre sem incidentes até o início da fase adulta, quando se iniciam as crises. Após uma infância e adolescência normais, meu pai saiu de Santo Ângelo, município com pouco mais de 70 mil habitantes onde havia crescido, para fazer faculdade em Santa Maria, uma cidade universitária agitada, quase quatro vezes maior que sua terra natal. Era começo dos anos 70 e ele tinha 18 anos. Foi quando ocorreram as primeiras manifestações.

Há quem credite a explosão do gene adormecido ao rompimento com um ambiente familiar superprotetor. Outros atribuem ao abuso de drogas – comportamento que a medicina considera um gatilho possível – dos primeiros semestres na universidade. Minha avó, que até hoje rejeita o diagnóstico oficial, especula que tudo começou quando ele bateu a cabeça durante uma viagem de ônibus, num solavanco mais vigoroso do veículo. O que se sabe ao certo é o que aconteceu a partir daí: vieram crises e mais crises. Meu pai faltava a boa parte das aulas. Sumia por dias a fio sem dar notícias, e quando voltava aparecia com os olhos esbugalhados, tremendo e dizendo coisas sem sentido. Era uma visão assustadora para minha família. Um terror amplificado pela ignorância de não fazer ideia do que estava acontecendo com ele, tão normal e estudioso até pouco tempo. Às crises se intercalavam tentativas de retomada da vida. Foram três faculdades iniciadas na Universidade Federal de Santa Maria, nenhuma jamais concluída; um período no curso de formação de tenentes do Exército; um punhado de empregos com amigos da família. Alguns anos mais tarde, de volta a Santo Ângelo, ele ainda tentou estudar direito, mas não concluiu o curso. Foi seu derradeiro esforço. Pelos anos seguintes, meus pais, meu irmão e eu vivemos da renda de imóveis da família, administrados com surpreendente tino por meu pai.

Ele só não desistiu da música. Tocava violão. Cresci ouvindo-o dedilhar Beatles, Roberto Carlos e Renato e Seus Blue Caps. Cantava muito bem e sabia ser o centro das atenções. As festas de família em que empunhava o instrumento e soltava a voz sempre me pareceram ser seus momentos mais felizes, quando de alguma forma ele conseguia fazer com que as coisas dessem certo.

Ainda assim, está ligada à música uma das lembranças mais vívidas que tenho da sua esquizofrenia. Eu era adolescente e estava aprendendo a tocar violão. Já conseguia executar algumas canções, porém era incapaz de afinar o instrumento. Pedi a meu pai que o fizesse. Ele sentou ao meu lado, na cama, e começou a arpejar as cordas com o polegar direito, enquanto girava as tarraxas com a outra mão. Estranhei os gestos dele, tocando todas as cordas abertas, isto é, sem usar a mão esquerda. Em geral, tocam-se as cordas aos pares na quinta casa do braço, descendo do bordão até a prima, e afinando uma pela outra (quinta pela sexta, quarta pela quinta etc.). Mas aquele era um momento tão raro – nós dois compartilhando alguma coisa – que não prestei muita atenção ao método. Fiquei apenas ouvindo o que meu pai me dizia enquanto ajustava o instrumento.

Ele tinha acabado de tomar banho e cheirava a sabonete, um odor ácido e frutado. Falava de teoria e técnica musical. A formação dos acordes, o arpejo, o dedilhado. Um pai ensinando algo ao filho, um momento tão banal, tão comum, e justamente por isso tão especial para mim. Quando ele me entregou o instrumento, armei um dó maior com a mão esquerda e toquei confiante. O violão ecoou um som tão caótico que até meu ouvido inexperiente percebeu que havia algo muito errado. Testei um lá maior. De novo, dissonância. Fiquei atordoado. Eu já tinha visto meu pai afinar um violão dúzias de vezes. E no entanto ele havia passado dez minutos regulando aquelas cordas que agora pareciam refletir a mente dele: um todo desajustado de onde é impossível extrair alguma coerência. Nem mesmo quando toquei os acordes e produzi sons indecifráveis ele percebeu o que estava acontecendo.

Em segundos, vi perplexo ruir nosso momento pai e filho. Eu sabia que não ia conseguir falar nada para ele. Temia o terreno em que pisaríamos se eu dissesse o óbvio: “Pai, não tá afinado.” Eu não seria capaz de esfacelar a normalidade daquele momento, ainda que ela fosse só aparente e, afinal, ilusória. Meu pai se levantou e saiu. Fiquei sozinho na cama, com um violão desafinado e um cheiro de sabonete que nunca mais esqueci.

Meu irmão e eu gostávamos de ir aos jogos do Passo Fundo, time de futebol da cidade onde nossa família, incluindo meus avós paternos, foi morar no começo dos anos 90. Um dia, para nossa grande surpresa, o pai quis ir junto. Lembro como meu irmão, que na época devia ter uns 9, 10 anos, ficou empolgado. Em geral quem nos acompanhava em qualquer atividade, dos deveres da escola até comprar doces na esquina, era nossa mãe ou avô, que sempre foi muito próximo e fez o possível para suprir o papel da figura masculina na nossa criação. Aos jogos, íamos somente meu irmão e eu. Mas naquele dia ele foi com a gente. Chegamos ao estádio e nos sentamos no concreto morno da arquibancada, alinhados com o meio de campo. O dia estava quente e não nos importamos com o sol que nos fazia apertar as pálpebras. Era um momento estranho. Feliz mas estranho, pois não tínhamos muita intimidade com nosso pai. Como ele varava as madrugadas e dormia boa parte do dia, nossas rotinas quase não se encontravam.

Acho que mal haviam se passado quinze minutos de jogo quando ele disse que queria ir embora. Ficamos sem reação. Ele tentava se desculpar, dizendo que infelizmente não tinha como seguir ali com a gente. Começou a descer a arquibancada, sem olhar para trás, a cada passo ficando menor aos nossos olhos. Ele já ia longe quando meu irmão conseguiu expressar a raiva que estava sentindo. Xingava e amaldiçoava com a voz embargada, segurando as lágrimas como quem sabe que negar o choro a alguém às vezes é a única vingança possível. Não senti nada. Talvez por estar acostumado a jamais criar expectativas positivas referentes a algo que envolvesse meu pai, como uma criança que sabe que seu balão sempre vai estourar antes de encher. Ou, por ser três anos mais velho, eu tivesse maturidade suficiente para entender que havia uma doença maldita dentro da cabeça dele, um parasita voraz que envenenava e consumia seu cérebro, impedindo que ele fizesse o que mais queria: ser um pai de verdade.

É exatamente aí que está o sofrimento mais devastador dessa doença: não existe nenhum parasita. Nunca houve uma separação entre o cérebro sadio e o bicho que o contaminava. A esquizofrenia e a mente do meu pai eram uma coisa só, indissociáveis. E por isso eu nunca soube, nem nunca vou saber – de tudo que ele me disse e fez, de tudo que deixou de me dizer e fazer –, quando ele era ele mesmo e quando estava sob influência da doença. No dia em que disse que sentia muito orgulho de mim, sentia mesmo isso ou estava apenas tendo um delírio, imaginando um filho que não era o dele? Como posso considerar verdadeira e sincera uma lembrança se desde pequeno fui ensinado a julgar seus atos como frutos de uma mente doente? 

No outono de 2003, minha mãe saiu de casa. Eu soube por telefone – àquela altura, já estava na faculdade em Porto Alegre havia quase dois anos. Nessa mesma ligação, pela primeira vez alguém me disse alguma coisa concreta sobre a doença. “Teu pai tem esquizofrenia. Me sinto muito infeliz e sozinha”, ela falou. A sinceridade brutal foi a forma que encontrou para tourear o medo de que meu irmão e eu ficássemos contra ela. Isso não aconteceu. Meu pai não era culpado da doença, tampouco minha mãe. Na verdade, o que senti depois daquele telefonema foi uma enorme gratidão por ela ter suportado tanto tempo. Por ter esperado até que ficássemos adultos para ir atrás da sua felicidade. Minha mãe casou aos 19 anos, grávida de mim. Jovem e ingênua, achava que o comportamento excêntrico do meu pai era resultado das muitas horas de estudo. Nunca lhe passou pela cabeça perguntar por que aquele homem dez anos mais velho não conseguia concluir nenhuma faculdade. Como meus avós jamais se imiscuíram na vida sentimental do filho, minha mãe casou sem saber que meu pai era esquizofrênico.

Pouco mais de um mês depois da partida da minha mãe, meu pai teve um mal-estar estomacal violento. A suspeita primeiro recaiu sobre uma lata de pêssegos em calda aberta havia muitos dias. Medicado, ele melhorou, mas ao longo das semanas seguintes as indisposições foram ficando mais frequentes, até que o médico pediu exames mais detalhados. Só então o diagnóstico surgiu: um tumor no intestino, grande o suficiente para praticamente bloquear
o processo de digestão.

Meu pai foi operado para remover o tumor e passou por um período de quimioterapia. Mudou-se para a casa dos meus avós, emagreceu, parou de fumar. Não perdeu o cabelo, mas padeceu os enjoos do tratamento. Só fui visitá-lo depois de algumas semanas. De algum modo, eu tinha construído uma redoma em Porto Alegre, um espaço onde a fugacidade do convívio com meu pai me desobrigava de fingir que a doença não existia. Foi difícil destruir esse pequeno ecossistema de ilusão e encarar que agora eram dois os males a devastar a vida daquele homem.

Daquela época data um texto em que ele relata uma série de revezes na família. Com sua caligrafia impecável, ele narra a partida da minha mãe, a descoberta e o tratamento do câncer, entre incidentes menores como uma batida de carro em que minha avó quebrou o braço, uma mordida que meu avô levou da cachorrinha da família etc. No fim, conclui: “Não sei por que tanta perseguição.”

Guardo esse texto comigo. Sempre que o leio, me lembro de uma cena de Os Leões de Okavango, documentário do canal National Geographic sobre uma família de leões que perde o patriarca em uma disputa territorial com um grupo da mesma espécie e é forçada a procurar outro lugar para viver. Sem parceiro e com três filhotes pequenos, a leoa Ma di Tau foge sem rumo. Poucas horas depois, já viu um dos rebentos ser devorado por um crocodilo, está exausta, sem abrigo nem comida para dar aos dois sobreviventes, e ainda precisa permanecer vigilante o tempo todo. Nesse momento, ouvimos a voz grave do ator Jeremy Irons, narrador do filme, anunciar mais ou menos o seguinte: “E mais um dia amanhece no delta do rio Okavango, totalmente alheio ao sofrimento de Ma di Tau.” Não importa se é Ma di Tau, meu pai, eu. A natureza não dá mole: não tem piedade ou comiseração, não avalia quanto sofrimento cada um pode suportar. Depois de um dia que se foi chega outro, e depois mais outro e ainda outro, independentemente da nossa vontade de que o tempo retorne, ou congele, ou deixe de acontecer.

Em algum momento no começo dos anos 90, meu pai decidiu suspender a medicação. Minha mãe, ciente de que a vida normal seria inviável, passou a moer o comprimido de Haldol e misturar no suco que servia a ele no almoço. Nós, crianças ainda, não percebíamos como era curioso ele ter um copo separado, em que ninguém podia tocar. Minha mãe conta que quando meu irmão ou eu reclamávamos que o suco estava muito azedo, ou aguado, meu pai gentilmente oferecia o dele. Eram pequenos momentos de desespero para ela. Para acabar com situações assim, um dia ela nos contou o que vinha acontecendo nos últimos meses. Enfatizou que sob hipótese alguma deveríamos beber um gole que fosse, mesmo que o pai insistisse. Mais alguns meses se passaram e ela nos chamou para dizer que revelaria a ele o truque do remédio no suco. Estava nervosa com a conversa, com a possível reação dele. Para alívio de todos, ele entendeu, agradeceu e voltou a se medicar normalmente.

Foi também nessa época que meu irmão e eu passamos por uma avaliação com uma psicóloga. Íamos ao consultório e fazíamos desenhos, jogávamos ou simplesmente conversávamos. Ela concluiu que estava tudo bem com a gente, não identificou nenhum traço ou propensão para a esquizofrenia.

Apesar de tudo, tive uma infância feliz. Meu irmão e eu crescemos muito próximos, com muitos amigos. Meus avós paternos foram presenças constantes – era para a casa deles que eu ia todos os finais de semana e durante as férias. Minha mãe sempre foi incrível. Até hoje adoro o Natal, certamente pelas boas lembranças. Não acho que a doença do meu pai tenha feito a minha vida difícil ou que o sofrimento tenha me trazido uma sabedoria especial.

Três anos depois da cirurgia para retirar o tumor, meu pai começou a reclamar de fortes dores nas pernas. Como as pontadas irradiavam da coluna em direção aos pés, o médico logo diagnosticou um problema no nervo ciático. Ao longo das semanas seguintes, ele passou a sentir dificuldade em se locomover e ficava boa parte do dia na cama. Fui visitá-lo nesse período. Estávamos no quarto que ele ocupava na casa dos meus avós; ele deitado, eu sentado em uma cadeira aos pés da cama. Era uma tarde de começo de inverno e o ar recendia a cobertores recém-retirados do armário. Estávamos praticamente em silêncio. Não tínhamos muito assunto, então eu apenas ficava ali, calado ou comentando trivialidades. Sabia que minha companhia bastava. De repente, ele começou a chorar. Um choro desgarrado, daqueles que o sujeito fica um tempo sem respirar e depois puxa o ar com força quase desesperada. Pensei que estivesse sentindo muita dor e ensaiei alguma pergunta. Foi quando ele falou: “Eu fracassei em tudo, meu filho. Em tudo. Sempre tinha alguém mais forte que eu.”

Difícil dizer se doeu mais perceber o quanto meu pai havia sofrido ao longo da vida ou entender que, mesmo com a doença, ele sempre soubera que sua história tinha sido uma sucessão de tentativas malogradas. Tentei consolá-lo. Disse que estava enganado, que ele tinha muitas conquistas de que se orgulhar, seus filhos eram os maiores exemplos disso – adultos independentes, íntegros como ele sempre fora. Ao ouvir isso, se acalmou. Acenou positivamente com a cabeça enquanto limpava as lágrimas nas costas das mãos. Então retomamos o silêncio.

Pouco depois dessa visita, os médicos descobriram que as dores provinham de uma metástase na região lombar da coluna, que esmagava a medula conforme ia crescendo. Os exames apontaram ainda outro tumor semelhante, perto da cervical. Meu pai chegou a se operar para retirar a metástase da lombar, uma cirurgia difícil, de recuperação dolorosa e pouco efeito prático, que apenas nos proporcionou a sensação de que havíamos tentado tudo.

A última vez que o vi vivo foi quando mostrei a ele as fotos da minha formatura. Precisei segurar cada uma das imagens sobre a cama, ele já não podia movimentar os braços. Meu pai, que havia chorado semanas antes ao ver o vídeo da cerimônia, da qual eu tinha sido o orador, dessa vez sorriu orgulhoso.

A morte do meu pai alterou a dinâmica com que eu havia encarado sua doença a vida toda. Não havia mais motivo para fingir normalidade em relação a nada. Meu pai agora estava morto, era uma lembrança, e lembranças podem até mexer em feridas antigas, mas não criam novas. Comecei a encaixar meu pai na minha história de vida, doente como ele de fato sempre havia sido e eu nunca tinha conseguido aceitar. Passei a falar da doença dele com os amigos, a namorada, minha mãe, meu irmão. Aos poucos substituí em meu passado o pai que ficava em casa cuidando dos negócios da família pelo pai medicado com Haldol.

Eu tinha quase 20 anos quando disse pela primeira vez a frase “Meu pai é esquizofrênico”. Até dois anos antes, ao ler a bula de um dos medicamentos dele, não tinha certeza se o diagnóstico era mesmo esse. Estava falando ao telefone com uma amiga, colega de faculdade, sobre o genérico tópico “problemas da vida”, e anunciei que tinha algo para contar. Um segredo que nunca havia revelado a ninguém. Na hora, minha voz travou. Antes de dizer, precisei me livrar dos vinte anos de bloqueio e vomitar tudo que engoli a vida inteira fingindo que a doença não existia. Quando as palavras finalmente saíram, fiquei esperando a reação dela. Espanto, horror ou, pior, pena? Mas ela reagiu com naturalidade. E eu entendi que meu maior drama era apenas um drama, o meu, e não o mais pavoroso de todos. 

 

quarta-feira, 19 de março de 2014

Como se fabricam crianças loucas


Como se fabricam crianças loucas


http://brasil.elpais.com/brasil/2014/03/17/opinion/1395072236_094434.html

 

Em uma noite de novembro de 2007, a psicóloga Flávia Blikstein escutou de uma menina duas perguntas. E descobriu que não tinha respostas. Flávia trabalhava num Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) infantil, em São Paulo, e encontrava-se na ambulância para levar a garota para sua primeira internação psiquiátrica. Maria, como aqui será chamada, tinha 14 anos. Era negra, alta e magra. Falava pouco, frases curtas. Gostava de brincar de boneca e de desenhar. Às vezes pintava as unhas, arrumava o cabelo, anunciando a adolescência. Maria se molhava o tempo todo, em pequenos rituais. Abria a torneira, fazia uma conchinha com as mãos e molhava os pés, as pernas, os braços. Fazia isso em qualquer lugar, causando vergonha à mãe. Talvez Maria estivesse esculpindo com a água os limites do próprio corpo. Quando fez a primeira pergunta à Flávia, ela ainda tinha as pontas dos dedos úmidas, e o seu olhar também era molhado:

- Por que eu vou ficar aqui?

Flávia descobriu que não tinha resposta.

Maria fez então a segunda pergunta:

- Quem tá aí? Quem vai dormir no quarto comigo?

Flávia descobriu que não tinha resposta também para essa. Não tinha resposta porque, ao contrário do que costuma acontecer quando crianças e adolescentes nos mostram a face do abismo, ela tinha escutado as perguntas. Escutado mesmo. A “menina louca” tinha indagado sobre a estrutura do Estado e da sociedade que a obrigava a dar o primeiro passo para dentro de uma instituição psiquiátrica. Talvez Maria intuísse que esse passo poderia ser longo. Talvez Maria adivinhasse que os dentes do sistema estavam à sua espera, logo ali.

Flávia abraçou Maria. E pediu desculpas por não saber responder. Maria entrou, carregando olhos molhados e pontos de interrogação.

A “menina louca” tinha indagado sobre a estrutura do Estado e da sociedade que a obrigava a dar o primeiro passo para dentro de uma instituição psiquiátrica

O que Maria perguntou à Flávia, perguntou a todos nós: por que, no século 21, crianças e adolescentes brasileiros, a maioria filhos de famílias pobres, continuam a ter suas vidas mastigadas num hospital psiquiátrico. A “criança louca” fez aos normais a pergunta mais lúcida: por que a condenavam a uma existência de manicômio. A habitar um mundo de dor, vagando entre paredes, desvestindo a si mesma para vestir um uniforme, sem direito ao desejo. Por que lhe negavam a humanidade tão cedo.

Flávia não pôde esquecer as perguntas, menos ainda a sua falta de respostas. Dedicou-se a buscá-las. Encontrou-as no arquivo do Núcleo da Infância e da Adolescência (NIA) do Centro de Atenção Integrada em Saúde Mental (CAISM) Philippe Pinel. O Pinel é uma das instituições de referência para internação de crianças e adolescentes com problemas mentais no estado de São Paulo. Flávia sabia que aquilo que se costuma chamar de arquivo morto era bem vivo. Então, botou-o para falar. Fechou-se na pequena sala bordada de estantes durante todos os sábados de um ano inteiro. Analisou 451 casos, correspondentes a 611 internações ocorridas entre janeiro de 2005 e dezembro de 2009. Destes, 79% das crianças e adolescentes haviam sido internados apenas uma vez. Os 21% restantes tiveram de duas a sete reinternações. Alguns casos, que continuaram a voltar ao Pinel, ela acompanhou também nos anos de 2010 e 2011. Flávia queria saber qual era o percurso que levava crianças e adolescentes ao hospital psiquiátrico como primeira providência – e não como exceção pontual e por tempo determinado.

O arquivo do Pinel ficava logo abaixo da enfermaria das crianças e adolescentes. Enquanto pesquisava, Flávia podia ouvir os gritos. Percebeu, porém, que mais do que gritos havia um silêncio longo. Um silêncio, nas suas palavras, “estranho e profundo, um silêncio que não imaginamos num lugar cheio de crianças e adolescentes”. Dentro do arquivo, não. Os prontuários contavam histórias. Ainda que a voz de meninos e meninas ressoasse mais nas ausências, nas entrelinhas, os prontuários diziam de infâncias aniquiladas numa vida de manicômio. E mostravam por que caminhos a fabricação de crianças loucas é uma verdade profunda do Brasil. Flávia chamava o arquivo de “sala das almas”. E as almas falavam.

Duas crianças, que se transformaram em adolescentes no hospital psiquiátrico, contaram histórias que poderiam ilustrar livros escabrosos sobre os manicômios do passado, mas que se passaram na primeira década desse século. Aqui, elas serão chamadas de José e de Raquel. José permaneceu confinado por 1271 dias – ou três anos e cinco meses. Raquel, por 1807 dias. Ficou trancada dos 11 aos 16 anos – e de lá foi transferida para outra instituição psiquiátrica. José e Raquel estavam segregados no Pinel, a mando da Justiça, sob reiterados protestos da equipe técnica. Foram depositados como coisas no Pinel porque ainda é este o destino dado a crianças como eles no Brasil.

Por quê?

Flávia sabia que aquilo que se costuma chamar de arquivo morto era bem vivo. Então, botou-o para falar. Analisou 451 casos, correspondentes a 611 internações ocorridas entre janeiro de 2005 e dezembro de 2009

É preciso prestar muita atenção às respostas que Flávia encontrou. Sua escuta de três mil horas dentro do arquivo transformou-se numa dissertação de mestrado em psicologia social na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Somando-se a trabalhos fundamentais de outros pesquisadores do tema, tanto em São Paulo como em vários estados do Brasil, a investigação mostra por que os manicômios persistem apesar das diretrizes da política de saúde mental e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A Lei nº 10.216, de 2001, orientada pela reforma psiquiátrica, prioriza o atendimento em rede, em serviços inseridos na comunidade, perto da família, e determina que a internação só pode ocorrer depois de esgotados todos os recursos extra-hospitalares. Não é o que acontece em casos demais.

“Medievais”, “desumanos” e “criminosos”. Essas são algumas das palavras usadas para definir os hospícios desde que a luta antimanicomial se intensificou a partir do final dos anos 1970 e conquistou avanços significativos nesse século. A pesquisa mostra, porém, que mesmo instituições e profissionais que tentam fazer diferente são seguidamente vencidos pelas engrenagens e pela escassez de serviços públicos de base. Na prática, ainda hoje, é de manicômio e de vida manicomial que se trata em uma parte significativa dos casos, uma realidade só possível pelo descaso quase absoluto da sociedade com o destino dessas crianças, em geral filhas de famílias pobres. Ao fazer o arquivo morto falar, Flávia constrói respostas que precisam ser escutadas se quisermos, de fato, estancar o crime de fabricar crianças loucas – e, muitas vezes, também o de conseguir enlouquecê-las.

Raquel nasceu em 1994. A mãe estava presa por tráfico de drogas, não porque era chefe de uma organização criminosa, mas porque vendia uma pequena quantidade para sustentar seu próprio vício. Esse destino é comum nos presídios do país, é também gerador de órfãos de mães vivas. Pobre demais para dar conta dela, a avó colocou Raquel num abrigo aos cinco anos. A menina é de imediato descrita como “agressiva”. E, por esse motivo, é afastada das outras crianças. Passa a morar com o que se chama de “mãe social”, isolada numa casa nos fundos do abrigo. A escolha, como mostra Flávia, evidencia que, desde sempre, a resposta à agressividade de Raquel é a exclusão. Obviamente, também não deu certo. De abrigo em abrigo, Raquel virou aquela que “não dava certo” em abrigo nenhum.

Talvez valesse a pena perguntar se a agressividade, ao se olhar para o contexto e as circunstâncias, não era o principal traço de sanidade de Raquel. Mas o direito à história é o primeiro a ser arrancado das “crianças loucas”. Ela já tinha quase tantos rótulos quanto anos de vida: filha de presidiária, abandonada, agressiva, não dá certo... Raquel só era vista por estigmas e fragmentos.

Ela queria saber qual era o percurso que levava crianças e adolescentes ao hospital psiquiátrico como primeira providência – e não como exceção pontual e por tempo determinado

Negra como Maria, ela foi internada pela primeira vez em 2005, aos 11 anos. Entrou no sistema por ordem da Justiça. Antes de seguirmos o seu destino, é crucial entender as duas formas de entrada nas instituições psiquiátricas, identificadas pela pesquisa. Nelas se encontra uma das chaves para compreender a fabricação das crianças loucas no Brasil atual. Assim como os caminhos pelos quais é mantida viva a função histórica dos manicômios como lugar de segregação daqueles que são decodificados como perigosos para a ordem social, ainda que sejam apenas pobres e abandonados.

Em pouco mais da metade dos casos – 55% – o pedido de internação psiquiátrica foi feito por familiares e por diferentes serviços da rede de saúde. Nos outros 45%, crianças e adolescentes foram internados por ordem judicial. Estes são os dois caminhos de entrada nos hospitais psiquiátricos. A pesquisa mostrou, porém, algumas diferenças fundamentais para compreender o problema: no período pesquisado, a Justiça internou mais cedo, por mais tempo e mais vezes. A maioria dos casos era de adolescentes, mas as crianças respondiam por 20% das internações por ordem judicial. Pela via da rede de saúde, menos de 6% eram crianças. Por ordem judicial, o tempo médio de internação era quase o dobro (55 dias contra 30). A Justiça também foi responsável por 92% das internações com duração maior do que 150 dias. Entre os 14 casos que sofreram internações de quatro a sete vezes, 12 tinham sido confinados por ordem judicial.

Entre eles, Raquel. Dos 11 aos 16 anos, ela foi internada seis vezes no Pinel. A queixa da primeira vez: “Paciente institucionalizada há oito meses (nome de outro hospital), com transtorno de comportamento, heteroagressiva (agressividade dirigida a terceiros), em tratamento ambulatorial pouco resolutivo”. Depois de seis dias, o Pinel deu alta e a menina foi encaminhada a um abrigo. Oito dias mais tarde, ela foi novamente internada por ordem judicial: “Paciente portadora de transtorno de conduta grave. Uma vez no abrigo, voltou a ficar agressiva. Crítica seriamente comprometida, ameaçadora”. Outros 19 dias de internação, e o Pinel pediu à justiça que ela tivesse alta. Passada uma semana, o pedido foi atendido, e ela voltou ao abrigo. Mais três dias e Raquel de novo foi internada no Pinel por ordem judicial: “Ao retornar ao abrigo volta a apresentar quadro importante de liberação de agressividade e falta de controle de impulsos”. Raquel ficou trancada no Pinel por 1004 dias.

Nessas três primeiras vezes, tornou-se evidente que a justiça internava e o hospital liberava, porque não havia razão para manter Raquel confinada. Documentos anexados ao prontuário mostram que a direção da instituição enviou diversos relatórios à justiça, tanto informando da alta médica da paciente quanto pedindo encaminhamento a um abrigo e tratamento ambulatorial. Num dos documentos, a direção afirma: “Nosso hospital está fazendo o papel de Abrigo para esses adolescentes. Sabedores dessa ilegalidade pedimos com urgência uma resolução para esse problema”. E, em outro ofício: “Atualmente a adolescente continua residindo na enfermaria para tratamento de pacientes agudos, encontra-se longe da escola e com enormes prejuízos psicológicos e sociais”.

“Medievais”, “desumanos” e “criminosos”. Essas são algumas das palavras usadas para definir os hospícios desde que a luta antimanicomial se intensificou a partir do final dos anos 1970

A cada três meses, o Pinel mandou ofícios à justiça. Só foi atendido depois de quase dois anos e nove meses. Mas a vida de Raquel fora do hospital durou apenas uma semana. Mais uma vez ela foi internada na instituição. O motivo: “Evolui com episódios recorrentes de agressividade, fugas necessitando atendimento em unidades de emergência. Há dois dias em acompanhamento no CAPS sem aderência ao tratamento”. Depois de mais 413 dias de internação, Raquel fugiu do hospital. Voltou espontaneamente dois dias mais tarde. Para onde mais ela iria, já que o longo período de confinamento esgarçou ainda mais os frágeis vínculos familiares e a impediu de criar novos?

Raquel permaneceu internada mais 244 dias, antes de ser encaminhada a outro abrigo. Quinze dias fora do hospital, e a justiça mandou-a de volta: “Jogou fora seus remédios, quebrou o vidro da brinquedoteca, feriu-se, pegou o telefone para se enforcar e fugiu para uma cidade vizinha dizendo que ia procurar seus avós”.

Na sexta vez, está registrado no prontuário: “A paciente verbaliza que a maior dificuldade que enfrentou no retorno ao abrigo foi uma sensação de inadequação na convivência com adolescentes sem problemas psiquiátricos; infelizmente, criou-se um vínculo inadequado iatrogênico (provocado pela própria prática médica) de segurança com o ambiente de internação, o que se configura como Hospitalismo”.

Em outras palavras. Raquel não sabia mais viver fora do hospital psiquiátrico, seus vínculos estavam dentro da instituição. Se tinha a algum afeto, era ali. Era no hospital que ela sabia como se comportar, identificava uma rotina, fazia amigos entre outras crianças e adolescentes como ela ou realmente doentes. Considerava profissionais de saúde como parentes. E, mais tarde se saberia, quebrava coisas e agredia pessoas quando era mandada para o abrigo porque sabia que assim voltaria àquele que era o único lugar parecido com um lar que tivera na vida.

No total, Raquel ficou trancada no Pinel cinco anos. Sublinha-se: sem necessidade. Sua vida cabe em três caixas do arquivo. Mas esse não foi o fim de sua trajetória manicomial. Em 2010, aos 16 anos, ela foi transferida para outro hospital psiquiátrico

Nessa época, a direção do Pinel mandou mais um ofício à justiça: “Aproveito a oportunidade para dizer da indignação dessa equipe técnica que, por diversas vezes, acionou o judiciário solicitando a desinternação desses adolescentes que, na ocasião, precisavam apenas de um abrigo para moradia e dar continuidade ao atendimento ambulatorial, tendo assim seu direito constituído”.

No total, Raquel ficou trancada no Pinel cinco anos. Sublinha-se: sem necessidade. Sua vida cabe em três caixas do arquivo. Mas esse não foi o fim de sua trajetória manicomial. Em 2010, aos 16 anos, ela foi transferida para outro hospital psiquiátrico.

O diagnóstico que sustentou a condenação de Raquel a uma vida manicomial é bastante revelador: “transtorno de conduta”. Segundo a Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID), “os transtornos de conduta são caracterizados por padrões persistentes de conduta dissocial, agressiva ou desafiante. Tal comportamento deve comportar grandes violações das expectativas sociais próprias à idade da criança; deve haver mais do que as travessuras infantis ou a rebeldia do adolescente e se trata de um padrão duradouro de comportamento (seis meses ou mais)”. Essa “patologia”, assim como outras que compõem a CID, é contestada por parte dos psiquiatras, psicanalistas e psicólogos, assim como por profissionais de outros campos do conhecimento. Mas, ainda que se aceite que essa doença de fato existe, o tratamento recomendado é inserção comunitária – e não asilamento.

Em sua investigação, Flávia mostrou que o diagnóstico de “transtorno de conduta” tem sido usado de modo generalizado – e quase displicente – para justificar internações em hospitais psiquiátricos. Tanto na internação pela via da rede de saúde como na internação por ordem judicial, o principal diagnóstico é esquizofrenia. Mas o “transtorno de conduta” tem aumentado. Numa comparação com uma pesquisa anterior, na qual Julia Hatakeyama Joia analisou os prontuários do Pinel entre fevereiro de 2001 e agosto de 2005, Flávia constatou que os chamados “transtornos do comportamento e transtornos emocionais” – dos quais “transtornos de conduta” correspondem a 75% dos casos – cresceram como motivo de confinamento. Em 2002, eram causa de 5,26% das internações. Passaram para 7,14% em 2005. E alcançaram 15,2% das ocorrências em 2009. “Em muitos casos, é diagnosticado em crianças com episódios de descontrole e agressividade, sem que exista uma análise sobre sua história e contexto de vida”, afirma a psicóloga. Outro dado comparativo de extrema relevância é que, entre 2001 e 2004, a proporção de internações no Pinel por ordem judicial era de 23% do total. De 2005 a 2009 saltou para 45%.

Em sua investigação, Flávia mostrou que o diagnóstico de “transtorno de conduta” tem sido usado de modo generalizado – e quase displicente – para justificar internações em hospitais psiquiátricos

O “transtorno de conduta” é bem mais recorrente na internação por ordem judicial do que na internação pela via da rede de saúde. É o diagnóstico de um quarto das internações com duração maior do que 150 dias e por mais de um terço dos casos de crianças e adolescentes internados de quatro a sete vezes. É o rótulo de Raquel – e também o de José. Meninos representam quase 80% das crianças e adolescentes internados, um dado cujas razões precisam ainda ser melhor compreendidas.

José tinha 10 anos quando deu o primeiro passo para dentro do Pinel, por ordem judicial. Tinha passado, segundo o relatório da instituição, por “maus tratos, negligências e privação afetiva”. Apresentou “comportamentos desafiadores e transgressores, o que resultou em rejeição e abandono familiar, principalmente de sua mãe”. A mãe decidiu entregá-lo para o pai, na Bahia. No dia da viagem, José recusou-se a ir. Ele não queria se separar da mãe. Para não ser obrigado a viajar, por duas vezes tentou se jogar diante dos carros, na rua. A “crise de agitação” levou à sua primeira internação. A duração: 623 dias.

Quando teve alta, José foi encaminhado a um abrigo. Permaneceu apenas três dias antes de ser internado novamente. Dessa vez, ficou trancado por 255 dias. José fugiu. Para onde? Para a casa de mãe. Mais uma internação, por “agitação psicomotora com intensa heteroagressividade, baixa tolerância à frustração, sem crítica, e risco de vida”. Dessa vez, ficou 84 dias na instituição antes de fugir novamente. Para onde? Para a casa da mãe. Na quarta e última internação, ele permaneceu 309 dias no Pinel. Foi então encaminhado para um abrigo. De onde fugiu. Para a Bahia, em busca de um lugar e de um afeto.

No total, José ficou 1271 dias trancado no Pinel: três anos e cinco meses. Sobre José e Raquel, a equipe técnica do hospital enviou um ofício à Justiça, em 2008: “(...) Estão em alta médica, mas permanecem nesta enfermaria psiquiátrica para tratamento de pacientes com transtornos mentais agudos, privadas de ter uma vida digna, por não terem retaguarda familiar e não existirem vagas em abrigos”. Sobre esse destino, Flávia afirma: “As internações são motivadas por uma combinação complexa, que resulta numa situação de vulnerabilidade. A resposta da internação psiquiátrica, além de redutora de complexidade, é ela mesma produtora de maior sofrimento. A internação por ordem judicial revela uma concepção sobre a infância e a adolescência pautadas no medo e no perigo. Propõe uma resposta única a todas as situações, sem considerar diferenças, singularidades e contextos. Reduz crianças e adolescentes ao status de paciente psiquiátrico perigoso, produzindo sua cronificação”. É assim que se fabricam crianças loucas.

Vale a pergunta: fugir pode ter sido um ato de sanidade de José, na tentativa de não ser enlouquecido? De algum modo, apesar de tudo e de todos, ele parece acreditar que existe um lugar para ele, um lugar com afeto. José, Raquel e Maria nos mostram que não há desamparo maior do que o de uma criança num manicômio. Ninguém está mais sozinho nesse mundo do que José, Raquel e Maria. Expostos a uma sociedade que, além de não protegê-los, os enlouquece. Eles fogem, como José, eles quebram tudo, como Raquel, eles fazem perguntas, como Maria. Mas estão sozinhos. E cada um de seus atos de resistência é mais um carimbo de sua suposta loucura num arquivo morto.

O desafio exposto pela pesquisa é também o de completar a reforma psiquiátrica no Brasil. Crianças e adolescentes, segundo a legislação, devem ser tratados dentro da comunidade, junto à família, sem afastamento da escola

Ao analisar os prontuários, Flávia conseguiu identificar claramente as diferenças entre a internação via rede de saúde e a internação por ordem judicial. Essas são conclusões cruciais do trabalho, porque apontam o que funciona e o que não funciona, apontam saídas. Na rede de saúde, a maior parte dos encaminhamentos é feita pela emergência de hospitais, o que não é o melhor percurso. Apenas 8% são enviados para internação por Unidades Básicas de Saúde ou por CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) infantil, que deveriam ser a porta de entrada para crianças e adolescentes com sintomas de doenças mentais. Esses dados demostram a falta desses serviços, causando desamparo na população que necessita de assistência pelo SUS. Em vez de começarem o tratamento pela rede básica, inserida na comunidade, o iniciam pelo fim e por aquilo que é uma exceção necessária num mínimo de casos: a internação. A hipótese de Flávia é de que, se houvesse mais serviços comunitários de saúde mental, como está previsto na legislação, é provável que a necessidade de internação fosse bem menor. Em vez do hospital psiquiátrico, uma rede articulada, com investimento maior em equipes de saúde mental, na capacitação e implantação do Programa de Saúde da Família e de centros de atenção psicossocial. “A patologização das crianças em situação de vulnerabilidade social evidencia a precariedade da rede de atenção e cuidado, e também a insuficiente articulação entre as políticas públicas nos campos da educação, saúde, habitação e lazer”, afirma.

A diferença é clara na análise dos dados. Nos casos encaminhados pelos Centros de Atenção Psicossocial, a média de dias de internação é mais baixa do que pelos outros caminhos. Quando crianças e adolescentes são cuidados pelos CAPS depois da alta, apenas 3% são reinternados. “Isso mostra que os serviços comunitários funcionam, mas são em número insuficiente”, afirma Flávia. “Nos pacientes encaminhados pela rede de saúde, o hospital funciona como enfermaria de crise. A maioria é de adolescentes de 15 a 17 anos, em seu primeiro surto psicótico, que são cuidados e liberados. Já na internação por via judicial, o hospital funciona como instituição de asilamento.”

O desafio exposto pela pesquisa é também o de completar a reforma psiquiátrica no Brasil. Crianças e adolescentes, segundo a legislação, devem ser tratados dentro da comunidade, junto à família, sem afastamento da escola. A doença, se de fato existe, deve ser compreendida como uma das várias características – e não como a verdade única sobre aquela criança e adolescente. Mesmo a internação, se for necessária, deve ser entendida como uma parte da história – e não como a história inteira. A internação é um momento, não um destino.

Flávia permanecia das 10h até as 21h de cada sábado na sala das almas do Pinel. Numa noite, estava tão mergulhada nos prontuários que se esqueceu da hora e se atrasou para sair. O guarda do portão recusou-se a deixá-la ir. Eram as regras. Ele não estava ali para pensar sobre elas, mas para cumpri-las. E Flávia soube o que era estar entre muros – e não ser escutada. Depois de um tempo que pareceu largo demais, Flávia conseguiu provar que era uma psicóloga, fazendo um trabalho de pós-graduação para a PUC. Acredita que o fato de ser branca, loira e de olhos azuis possa ter ajudado na sua “soltura”. Mas, ao abrir o portão, o segurança alertou: “Na próxima vez, fica”. Por um momento, trêmula, Flávia teve uma tênue aproximação do que sentiram Raquel, José e Maria, apenas três entre as centenas de “crianças loucas” fabricadas nesse século.

Ao final de sua estadia no arquivo morto que ela descobriu ser vivo, Flávia finalmente tinha as respostas para Maria.

1) Por que eu vou ficar aqui?

- Porque as instituições que compõem a rede de atendimento à criança e ao adolescente trabalham de forma desintegrada e não conseguem atender às suas necessidades.

2) Quem tá aí? Quem vai dormir no quarto comigo?

- As crianças e os adolescentes que tiveram seus destinos produzidos ativamente pela desresponsabilização e pelo abandono.

Maria perguntou. Flávia escutou. Escutou de fato não quando a ouviu, mas quando fez o movimento de buscar as respostas. Elas estão aí, mas só provocarão mudança se o Estado, os governos e a sociedade as escutarem. Se nós as escutarmos. É, afinal, de escuta que se trata.

Flávia desconhece o paradeiro de José. Raquel foi libertada ao completar 18 anos. Mas o que há para Raquel depois do que fizemos com ela? É possível, é moral, é decente dizer à Raquel: vá estudar, vá trabalhar, vá construir uma vida? “É uma marca tão profunda que pessoas como Raquel, mesmo saindo da instituição, continuam institucionalizadas”, diz Flávia. “A institucionalização parece uma grande máquina que suga a potência humana, criando seres humanos sem desejo. A institucionalização é a patologia mais grave da saúde mental.”

Aos 19 anos, Raquel hoje perambula pelas ruas e albergues de São Paulo, ao redor das instituições. Às vezes declara-se “louca” e é internada por curtos períodos. Raquel sempre pergunta pelo seu melhor amigo:

- Onde está José?

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Email: elianebrum@uol.com.br. Twitter: @brumelianebrum

 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Filme: À primeira vista

Filme sobre a um cego que após recuperar a visão perde a capacidade de reconhecer objetos e pessoas (agnosia). À Primeira Vista - 1999, com Val Kilmer. Baseado em uma história verídica relatada por Dr. Oliver Sacks ,em "To see and not see". O link abaixo começa com o trailer e, logo após, tem o filme completo.
(link do youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=HtnUYoeYB38)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Plano de Curso - Psicopatologia




 

 

FACULDADE “PIO DÉCIMO”
 
COORDENAÇÃO DO CURSO DE PSICOLOGIA

 

 

 

DISCIPLINA: Psicopatologia Geral

CÓDIGO DA DISCIPLINA: PC201106A

 

CARGA HORÁRIA: 80 h

CRÉDITO: 04

EMENTA

 

Fundamentos biopsicossociais dos transtornos mentais. Etiologia dos transtornos mentais. Classificação dos transtornos mentais. Diagnóstico, características e intervenções dos principais transtornos mentais.

 

OBJETIVO DO CURSO

 

° Embasar o entendimento sobre as categorias de normalidade e psicopatologia;

° Identificar as características e os critérios que norteiam a elaboração das atuais classificações  nosográficas: CID-10, DSM-IV e DSM-V;

° Caracterizar os diversos quadros nosográficos psiquiátricos;

° Fundamentar diagnósticos psicopatológicos, tendo por referência critérios psiquiátricos e psicodinâmicos.

 

HABILIDADES E COMPETÊNCIAS A SEREM ADQUIRIDAS

 

-Identificar e diagnosticar transtornos mentais e do comportamento tendo por base as categorias da CID-10 e/ou DSM-IV e DSM V.

- Atuar em diagnóstico e tratamento de transtornos mentais e do comportamento em contextos de atuação multiprofissional.

 

CONTEÚDO PROGRAMÁTICO

 

Introdução Geral:

 

° Apresentação / Introdução geral a disciplina

° Crítica dos conceitos de Normal e Patológico

° Loucura, Psiquiatria e Psicologia

 

1. Princípios de Nosologia e Nosografia Psiquiátricas:

 

° Funções psíquicas e suas alterações

° Nosologia psiquiátrica

° Classificações nosográficas: CID-10 / DSM-IV / DSM-V

° CID-10 / DSM-IV / DSM-V: Aproximações e diferenças

 

2. Principais Quadros Clínicos Psiquiátricos:

 

° Introdução aos principais quadros clínicos psiquiátricos

° Transtornos de Ansiedade

° Transtornos de Humor

° Transtornos Neuróticos: porque ainda uma classificação válida

° Transtornos Somatoformes

° Transtornos Factícios

° Transtornos Dissociativos

° Esquizofrenia e outros Transtornos psicóticos

° Transtornos Sexuais e da Identidade de Gênero

° Transtornos de Alimentação / Transtornos de Sono

° Transtornos Relacionados a Substâncias

° Delirium, Demência, Transtorno Amnéstico e Outros Transtornos Cognitivos

° Transtornos do Desenvolvimento Psicológico

° Transtornos da Personalidade

 

 

3. Fechamento Diagnóstico e Psicodinâmica dos Transtornos Mentais:

 

° A entrevista diagnóstica / montagem de caso

° Integração dos dados / diagnóstico diferencial

° Psicodinâmica dos transtornos mentais: Conflito / Frustração / Ansiedade / Angústia

° Integração dos dados / diagnóstico diferencial: casos especiais

° Encaminhamentos de caso

 

RECURSOS DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

 

Aulas expositivas, discussão crítica, exercícios individuais e grupais, estudos de caso, visitas a instituições relacionadas a saúde mental.

     .

 

ESTRUTURA DAS ATIVIDADES AVALIATIVAS

 

° Prova de conhecimentos;

° Fichamentos, resenhas e artigos;

° Análise de casos clínicos ;

° Exercícios de diagnóstico diferencial;

° Assiduidade e pontualidade.

 

 

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

 

APA (1995). DSM IV- Manual diagnóstico e estatístico dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas.

OMS. (1990) Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10. Porto Alegre: ArtMed. 

LOUZÃ NETO, M.R. et. all. (2009) Psiquiatria básica.2ª ed. Porto Alegre: ArtMed. 


BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

 

MACKINNON, R.A. & MICHELIS, R. R.S (2010). A entrevista psiquiátrica. 2ª ed, Porto Alegre: ArtMed. 

 

DALGALARRONDO, P. (2008) Semiologia e psicopatologia dos transtornos mentais. 2ªed Porto Alegre: ArtMed. 

 

FENICHEL, O. (1998) Teoria psicanalítica das neuroses. São Paulo: Atheneu.

 

FOUCAULT, M. (1991). História da loucura. São Paulo: Perspectiva.


JASPERS, K. (1997). Psicopatologia geral. 2 vol. São Paulo: Atheneu.


RECURSOS ELETRÔNICOS E AUDIOVISUAIS PARA CONSULTA